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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

As flores do jardim

 

Este mundo é um jardim

onde há muita flor bonita.

Gosto muito do jasmim,

da orquídea e da tulipa.

 

E nem sei lá muito bem

de qual delas gosto mais.

Mas não ferem ninguém

as preferências naturais.

 

No que respeita a gente,

não foi assim que se fez.

Decretou-se sabiamente

uma amar de cada vez.

 

Acontece que o amor,

é como a erva daninha:

irrompe com seu vigor

onde menos se adivinha.

 

E se brota outra flor

que encanta o meu ser,

o que me causa mais dor

é não a poder colher.

 

O teu rosto

Nunca vi o teu rosto,
nem tão-pouco quero vê-lo.
Do que o havia suposto
não vá ele ser mais belo.

Se não o vendo me é penoso
refrear minha paixão,
se se revelar formoso,
vai ser mortificação.

Pode ser que seja feio,
com a boca retorcida,
dentes tortos de permeio
e com lábios em ferida.

Se for desta natureza,
talvez possa ofuscar
tua restante beleza
e eu suporte te amar.

 

 

Na cozinha

 

Se te sentires sozinha

podes vir ter comigo.

Sentamo-nos na cozinha.

Faço dela teu abrigo.

 

Ponho água a aquecer

para fazer uma infusão.

Se quiseres podes dizer

o que te moi o coração.

 

Enquanto não ferver,

se quiseres, podes chorar.

Isso basta para entender.

Não precisas de falar.

 

Quando voltar do fogão

ponho na mesa a chaleira,

faço a preparação

e sento-me à tua beira.

 

E melhor do que contar

podes somente a cabeça

no meu ombro encostar

até que o mal desapareça.

 

Então, como a uma criança,

te aperto contra o meu peito

abandonando a lembrança

de que o chá já está feito.

 

 

A tua voz

Gosto de falar contigo.
De ouvir as notas alegres
que entoa a tua voz.
E quando isso acontece,
és como a flor que aparece
no ramo nu da amendoeira.
Ou como a cotovia,
que contente pousa nele,
encantando com o seu canto
e largando logo a seguir,
sem que o possa impedir.
Quando a tua voz se cala,
guardo no meu coração
a sua reverberação
até que voltes a surgir.

 

 

Amizade

Penso que tu pensas que eu penso de ti
aquilo que pensei que pensaste de mim.
Acontece que eu não penso nada disso.
E já percebi que também tu
não é isso que pensas.

O melhor é não pensarmos muito
porque, se o fizermos, corremos o risco
de pensar do outro coisas que,
se não pensássemos,
seria muito melhor.
Não achas?

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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