Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

As flores do jardim

 

Este mundo é um jardim

onde há muita flor bonita.

Gosto muito do jasmim,

da orquídea e da tulipa.

 

E nem sei lá muito bem

de qual delas gosto mais.

Mas não ferem ninguém

as preferências naturais.

 

No que respeita a gente,

não foi assim que se fez.

Decretou-se sabiamente

uma amar de cada vez.

 

Acontece que o amor,

é como a erva daninha:

irrompe com seu vigor

onde menos se adivinha.

 

E se brota outra flor

que encanta o meu ser,

o que me causa mais dor

é não a poder colher.

 

O teu rosto

Nunca vi o teu rosto,
nem tão-pouco quero vê-lo.
Do que o havia suposto
não vá ele ser mais belo.

Se não o vendo me é penoso
refrear minha paixão,
se se revelar formoso,
vai ser mortificação.

Pode ser que seja feio,
com a boca retorcida,
dentes tortos de permeio
e com lábios em ferida.

Se for desta natureza,
talvez possa ofuscar
tua restante beleza
e eu suporte te amar.

 

 

A empregada do café

Tenho por hábito, ao fim-de-semana, tomar café a meio da manhã. Há uns meses resolvi experimentar um café ao pé de minha casa que reabrira depois de um confinamento já não sei de quanto tempo. O café é bom, mas o que mais me agradou foi uma das empregadas que lá trabalha. Apesar de usar sempre máscara, vê-se que é jovem e tem uma silhueta que roça a perfeição. Escusado será dizer que adotei este café como local de culto. O café ali é mesmo bom...

Há cerca de um mês vi-a pela primeira vez sem máscara. Não foi uma grande decepção, mas tinha uma fisionomia completamente diferente da que construira nas semanas anteriores. Bastante menos bonita, mas já nada havia a fazer... Já me tinha afeiçoado a ela e rapidamente passei a gostar do seu rosto e a habituar-me a ele, pois quando simpatizamos com uma pessoa gostamos das suas características independentemente do respetivo feitio. Apesar de ela ser de poucas conversas, tal como eu, era sempre um prazer lá ir. Mesmo não recebendo de sua parte sinais de atenção ou de simpatia.

Hoje, quando lá cheguei, ela estava a limpar uma mesa da esplanada. Procurei dar-lhe os bons-dias, mas ela não olhou para mim, apesar de ter ficado com a certeza de que me vira. Pedi o café ao balcão e ela acabou por se aproximar, mas apenas para registar qualquer coisa no écran táctil, mais uma vez sem me dar oportunidade para a cumprimentar. Como se tornou regra, dirigi-me para uma mesa alta, cá fora, para o tomar sem me sentar. Neste período apenas a vi à distância e, quando decidi ir-me embora, levei a chávena ao balcão mais para ter nova oportunidade de me cruzar com ela do que por amabilidade, embora costume ter esta atenção noutras ocasiões.

Como desejara, nesse momento, vi-a vir na minha direção e preparei-me para me lhe dirigir. Tal não foi necessário porque, antes que isso acontecesse, fez-me o sorriso mais bonito que alguma vez eu pudesse desejar, o qual se espelhou imediatamente na minha cara. Nem foram necessárias palavras para que os votos de bom-dia fossem proferidos. A emoção que tive foi de absoluta felicidade e comecei logo a congeminar futuras abordagens.

Não sei porque preciso tanto de momentos como este. Destas massagens no ego. Talvez por precisar tanto deles ando constantemente a procurá-los. Em geral acontecem quando menos espero e com uma frequência muito inferior àquilo que desejava. Mas quando acontecem, parece que fico nas nuvens, o que compensa a sua raridade. E a vontade de os deixar escritos talvez se prenda mais com o receio de os esquecer do que com a alegria em partilhá-los. Em relação a ela, até aqui eu seguia pelo carreiro, apesar de pisar nas ervas de vez em quando. Com o percalço de hoje fiquei com mais vontade de dele me desviar, apesar de saber que o precipício está mesmo ali ao lado. Uma coisa é certa: vou continuar a tomar café neste lugar...

 

 

Na cozinha

 

Se te sentires sozinha

podes vir ter comigo.

Sentamo-nos na cozinha.

Faço dela teu abrigo.

 

Ponho água a aquecer

para fazer uma infusão.

Se quiseres podes dizer

o que te moi o coração.

 

Enquanto não ferver,

se quiseres, podes chorar.

Isso basta para entender.

Não precisas de falar.

 

Quando voltar do fogão

ponho na mesa a chaleira,

faço a preparação

e sento-me à tua beira.

 

E melhor do que contar

podes somente a cabeça

no meu ombro encostar

até que o mal desapareça.

 

Então, como a uma criança,

te aperto contra o meu peito

abandonando a lembrança

de que o chá já está feito.

 

 

Despedida

Fiquei contente quando te vi esta manhã pensando que bom ela já cá está. Mal sabia que te estavas a despedir da praia… pensei que iria ser um dia como os anteriores. Que iria ter a graça da tua presença durante mais uns tempos. O privilégio da tua beleza. A dádiva da tua graciosidade.

Quando regressei à praia, ainda de manhã, e vi a tua palhota abandonada, ocupada somente pelo vazio, animada apenas pelo movimento ondulante das suas franjas, no íntimo percebi que por ali só restava o vento, também ele deambulando saudosamente…

Ainda quis enganar-me a mim mesmo, tentando convencer-me de que tinhas mudado de lugar, como fazem tantos outros. Mas, à tarde, tive a certeza de que tinhas partido. O mar já não brilhava, as ondas já não sorriam, a praia estava vazia. E eu estava ali, sozinho, numa praia cheia de areia e de pessoas.

Bem me pareceu estranho o teu olhar esta manhã. Demorou um pouco sobre mim, mas não dei importância. Agora que partiste, pergunto-me se terá tido alguma. Estarias tu a despedir-te também de mim? Terás reparado alguma vez em mim? Eu que só te observava pelo canto do olho, ou por detrás dos óculos escuros. Terás adivinhado que, enquanto descias com alegria e beleza em direção ao mar, me estavas a encantar mais do que o mais bonito pôr-do-sol? Deixei transparecer o quão me fascinavas?

És tão bonita!

Decerto não foram os meus olhos que me traíram. Talvez tenhas sintonizado os meus pensamentos, e eu sem nunca o perceber. Agora já partiste. E eu não me pude despedir de ti…

 

A tua voz

Gosto de falar contigo.
De ouvir as notas alegres
que entoa a tua voz.
E quando isso acontece,
és como a flor que aparece
no ramo nu da amendoeira.
Ou como a cotovia,
que contente pousa nele,
encantando com o seu canto
e largando logo a seguir,
sem que o possa impedir.
Quando a tua voz se cala,
guardo no meu coração
a sua reverberação
até que voltes a surgir.

 

 

A dona do clássico

Ela apareceu, numa bonita manhã de sol, quando eu estava numa exposição de carros antigos a admirar um MG B de 1968, o meu clássico preferido. Mais admirado fiquei. Vinha com um vestido primaveril, de flores amarelas sobre fundo branco. Trazia um chapéu de abas largas a condizer, lábios pintados de vermelho e um par de óculos escuros. Junto dela, com aquele carro ao lado, sentia-me a viajar no tempo.

Ainda não tinha perdido a elegância nem a beleza, apesar de já ter passado há muito os cinquenta. Fiquei mais fascinado com ela do que com o MG. Tinha sido da sua mãe e agora queria vendê-lo. Se eu tivesse dinheiro tê-lo-ia comprado logo ali. Tirei uma fotografia ao carro, mas, por falta de ousadia e de esperteza, não a incluí no enquadramento. Hoje, não me perdoo por esta aselhice. Ela é tão bonita e agora nem uma foto sua tenho para tornar mais nítidos os fracos contornos que ainda me restam na memória.

Gostei tanto daqueles minutos de conversa com ela. Era uma mulher muito doce, simpática e agradável. Conservava ainda alguns modos da menina que deve ter sido. Não era nada pretensiosa nem arrogante, mesmo com a beleza que carregava, de que certamente nem se apercebia ou achava ter já perdido. Era muito simples, sem ser subserviente.  Adorei-a. Teria ficado a tarde toda ali a conversar com ela. Nunca me tinha sentido atraído assim por uma mulher tão mais vivida do que eu. Antes de me despedir, com o pretexto do meu interesse na viatura, acabei por lhe pedir um dos seus cartões que tinha sobre o tablier...

Andava inquieto com toda esta situação. Ela não me saía da cabeça e não me parecia tão inacessível quanto o carro. Apetecia-me tanto voltar a vê-la... No dia seguinte não resisti a enviar-lhe uma mensagem. Comecei por falar sobre o carro, claro, mas rapidamente enveredei por outros caminhos, entrando num jogo proibido e a aproximar-me perigosamente da linha que não podia, mas que tanto queria transpor. Não estava a acreditar naquilo que estava a fazer.

Ela era realmente querida. Cheguei a dizer-lhe como a achava bonita e ela não se ia opondo aos meus avanços. Estava tudo a encaminhar-se favoravelmente para a convidar para um cafezinho, mas não me sentia bem a enganar uma mulher como ela. Sentia que ela não merecia isso e acabei por lhe revelar que não era solteiro. Como seria de esperar de uma mulher assim, com a sua inata doçura, colocou um ponto final na conversa.

Não tive outro remédio senão despedir-me, o que também fiz com ternura, prometendo-lhe que não tomaria a iniciativa de voltar a contactá-la. E, para não faltar à palavra dada, vi-me obrigado a rasgar o seu cartão e a apagar do telemóvel tudo o que me pudesse conduzir a ela. Não foi com raiva que o fiz. Antes pelo contrário. Foi com muito amor por ela, mas também com uma enorme mágoa, pois sabia que não voltaria a ligar-me.

Já se passaram três anos e nunca mais soube nada dela. Quanto ao MG B, fiquei a gostar dele ainda mais...

 

Para a Catarina

Querida Catarina,

Não devia estar a escrever-te. Bem sabes que assim é. Mas não consigo aguentar mais. A pressão do que te quero dizer e tenho vindo a reprimir durante tanto tempo excedeu a capacidade de resistência do reservatório. E este é o resultado desta explosão. Sei que sabes o que te vou dizer. Nem precisavas de ler como me te dirijo.  A quantidade de vezes que surpreendeste os meus olhos perdidos em ti já te tinha dito tudo isto.

Admiro-te muito. Reparei em ti logo da primeira vez que te vi, já lá vai tanto tempo... admirei a tua voz, a tua simplicidade, a tua graciosidade, a forma como interages com as outras pessoas. Admirei muito a tua beleza. Que se torna ainda maior temperada com todas as tuas caraterísticas particulares. Talvez sejam mesmo estas que te tornam tão bela. À medida que o tempo foi passando, foram-se intensificando os meus sentimentos por ti.

Apesar de me esforçar para não te seduzir, por saber que não estava correto, era-me muito difícil deixar de o fazer. A vontade de saber se ainda me procuravas era tão grande que cedia à tentação de te contemplar. Porque quando os teus olhos se prendiam nos meus, nem que fosse por um breve instante, fazias-me sentir uma vertigem e uma felicidade que me dava vontade de largar tudo e abraçar-te para sempre.

Houve uma vez, em que já não esperava encontrar-te, que te vi de repente e percebi que também só me tinhas visto naquele instante. Os nossos olhares encontraram-se nesse momento e a minha perplexidade e satisfação foram tão grandes que não o consegui disfarçar. E o melhor de tudo, foi ter-me parecido que o mesmo se passara contigo, pelo menos foi o que me deram a entender os teus quase impercetíveis movimentos. Lembras-te disto? Quem me dera saber se este momento e tantos outros, em que as nossas almas se tocavam, tiveram para ti o mesmo significado que tiveram para mim... Como é bom recordar momentos como este, Catarina. Amo-te tanto... 

A maior parte das vezes tinha a certeza de que também me amavas, o que tornava tudo mais difícil. Mas, por vezes, sentia que te incomodava. Ou por não te quereres envolver com um homem casado ou, talvez por afinal não me amares... Talvez tudo não passasse de uma fantasia que construi a teu respeito. Como as miragens de quem viaja no deserto, que acaba por ver aquilo que tanto deseja ver… doía-me tanto quando não te surpreendia uma única vez a olhar para mim… Quando assim pensava, sentia vergonha do meu comportamento. E nestas ocasiões fazia promessas a mim mesmo de não voltar a importunar-te, chegando mesmo a evitar os locais que frequentavas para não ter de me confrontar com esta luta interior que me era tão penosa.

Agora que te estou a dizer tudo isto, nem sei bem porquê, somente a satisfazer uma vontade instintiva de o fazer, não sei como vai ser quando nos reencontramos. Diz-me que não gostas de mim! Diz-me que te incomodo! Diz-me que te queres libertar e seguir a tua vida! Acho que só assim conseguirei também eu me libertar, pois já não aguento mais.

E mesmo que me ames não posso ir viver contigo. Não posso deixar a minha família e construir outra contigo que, conhecendo-me como me conheço, não iria ter futuro. Apaixonar-me-ia por outra mulher e o meu dilema iria continuar. Só mudavam os atores. Não consigo viver desta maneira. Mas não sei viver de outra... 

Contudo, quero que saibas que foste uma das mulheres que mais amei. Espero que nunca deixes de ser a pessoa adorável que és. Que a tua doçura te seja recompensada ainda nesta vida. Que a tua vivacidade perfume das melhores fragâncias aqueles que te rodeiam. Que continues a ser uma prova de que Deus existe e que encontres um homem decente, que te ame só a ti, a quem também possas dar um vislumbre, como fizeste comigo, de como é o Paraíso.

Não podendo ficar contigo na minha vida, guardar-te-ei sempre no meu coração. Um beijo, Miguel

 

 

 

 

 

Para a Luana

Luana,

Como é bonito o teu nome. Tal como a Lua, que torna menos escura a noite, assim foste tu para mim naquela viagem de avião.

Era noite de temporal. Estavas nervosa, mas confiante. Eu, mergulhado que estava em pensamentos tortuosos, pouco me importava com o que pudesse vir a acontecer.

Deliciei-me a ver como gerias a situação e como tentavas manter os passageiros descontraídos. Como disfarçavas o teu próprio medo. E a tua beleza fez-me esquecer todo o resto. Saboreei cada segundo da tua presença, tendo consciência de que jamais nos iríamos encontrar. E, mesmo sem me teres dirigido o olhar, vi nos teus olhos o esplendor que irradia a tua alma. Foi tão boa esta viagem, Luana.

Noutra paragem, o destino quis juntar-nos novamente e, desta vez, agraciou-me com a bênção do teu olhar. Naquele momento, olhando nos teus olhos e vendo o teu sorriso, apesar de estarmos em terra, senti-me a flutuar e não queria mais voltar a pousar.

Sei que não voltarei a estar contigo, mas sempre que olhar para a Lua, pensarei que poderás estar também a olhar para ela. Então, verei nela os teus olhos refletidos e sentirei que afinal estás ao meu lado.

Com um beijo, Miguel

 

 

 

 

Amizade

Penso que tu pensas que eu penso de ti
aquilo que pensei que pensaste de mim.
Acontece que eu não penso nada disso.
E já percebi que também tu
não é isso que pensas.

O melhor é não pensarmos muito
porque, se o fizermos, corremos o risco
de pensar do outro coisas que,
se não pensássemos,
seria muito melhor.
Não achas?

Mais sobre mim

foto do autor

Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub