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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

Helena

Confesso que estava um pouco ansioso por reencontrar a Helena depois de um ano sem a ver. Ela é muito bonita. Tem uns olhos de cristal, azuis, que estão sempre a sorrir ainda que o seu semblante se apresente mais sério, o que não é raro tendo em conta os seus azeites. Não resisti descer até à água, fingindo querer refrescar-me, para cumprimentar os seus pais e aproveitar, objetivo principal, para cumprimentá-la também, quando subisse, ao passar na sua palhota. Quando o fiz só lá estava a irmã com as suas amigas. Não reparei que na palhota ao lado a jovem que estava aparentemente a dormir, de barriga para baixo, era ela. Cumprimentei a irmã, que me respondeu a contragosto, e quando me dirigia para a minha palhota, três casas ao lado, na fila seguinte, a Helena me interpelou, de um salto, para me cumprimentar. Tentei refazer-me do calafrio o mais rapidamente possível para disfarçar ao máximo todas as emoções que se me afloraram naquele instante, ao mesmo tempo que procurava palavras para lhe dizer que parecessem adequadas ao reencontro entre um senhor já entrado e uma amiga da sua filha… E tudo isto com uma plateia imensa, de gente conhecida, a observar a cena, parecendo já adivinhar o enredo que sobremaneira fui tentando camuflar. Acho que disfarcei bem, mas a minha alegria e atrapalhação não escaparam certamente à astucia da Helena. Ela é muito mais do que linda… Que sensação! Que miúdo eu sou. Como pode uma mulher de apenas vinte anos ter este efeito num homem já de meia-idade? Fui para a palhota e sentei-me para me recompor, deixar o coração voltar ao seu lugar, depois de ter descido ao estâmago e subido à garganta. Mais calmo, decidi descer até à água para me banhar um pouco, bendizer a vida, apreciar a beleza da praia e descansar o olhar sobre a Helena apenas um pouco mais. Como se este presente não bastasse, tive a imerecida sorte de poder vê-la descer para também se banhar e ainda tê-la como companhia por alguns minutos, até decidirmos todos voltar para os nossos cómodos. Talvez ela não saiba que me fez ganhar as férias. E eu também não sei que raio de efeito tive sobre ela. Mas deixem-me acreditar que este nosso encontro teve algo que ver com aquele brilhozinho que vi no seu olhar… E é assim que vai vivendo um incorrigível canalha.

 

A ver se te vejo

sempre que vou pela rua
ando a ver se te vejo
cuidando também ser tua
a vontade de um beijo

sentires amor por mim
é com o que vou sonhando
e é por achar que sim
que a ver se te vejo ando

mesmo quando acho que não
continuo a querer ver-te
não me sais do coração
não consigo esquecer-te

se me disseres vagamente
que não te inspiro desejo
então irei prontamente
deixar de ver se te vejo

mas se eu for do teu agrado
nesse caso nada digas
ver-te-ei sempre a meu lado
por onde quer que sigas

 

A rosa amarela

Ultimamente tenho viajado bastante. Vou a terras longínquas. A outros planetas, como fazia o Principezinho. Numa dessas viagens encontrei uma rosa. De início, também era igual a tantas outras rosas. Era uma rosa amarela. Não daquele amarelo vaidoso, quase laranja. Nem daquele que se confunde com o branco. Era de um amarelo limão. Sim, era isso. Um amarelo fresco e alegre, a lembrar o Verão. Mal vi aquela rosa achei-a bonita, como aliás são todas as rosas. Mas cedo comecei a diferenciá-la das outras, porque passava por aqueles lados algumas vezes.

Quando passava deitava-lhe sempre o olho e cumprimentava-a cordialmente. Ela retribuía com a mesma moeda. Era uma rosa simpática, falava muito bem a toda a gente. Era mais atenciosa com os humildes mostrando-lhes sempre o seu lindo sorriso e espalhando alegria à sua volta. Ela deixava-os contentes e com mais vontade de trabalhar. E isso ainda me fazia gostar mais dela. Com os seus iguais não se deixava ficar. Tinha resposta pronta e era muito sensata merecendo por isso bastante respeito. Aquela rosa começou a cativar-me e percebi que também a cativava. Pelo menos um pouco. Porque quando gostamos de uma rosa e lhe damos atenção, uma atenção desinteressada, essa rosa também gosta de nós. E foi isso que acho que aconteceu.

Houve uma altura em que começámos a conversar. Sentava-me no chão ao seu lado e ia-lhe contando um pouco da minha vida. Ela gostava mais de ouvir do que de falar e ia-me ouvindo com atenção parecendo gostar do que lhe dizia. Mas mesmo sem falar nada sobre si mesma eu ia percebendo, pelas suas expressões, pelo seu olhar, pelos seus gestos tímidos, como é que ela era. E eu não me calava. Não era por medo de um vazio de conversa. Era mesmo porque ela parecia interessada em saber. E assim fomos ficando amigos. É boa a amizade. Faz-nos esquecer todo o resto, parecendo ser a coisa mais importante. É mesmo a coisa mais importante.

Enquanto estava naquele planeta a rosa amarela, cor de limão, era muito importante para mim. Mas chegou o dia em que tinha de voltar para o meu lar. Tive pena de deixar a rosa amarela e não sabia se regressaria àquele planeta. Quando nos despedimos ela deu-me um beijo na cara o que me surpreendeu, por um lado, mas veio a confirmar a ideia que tinha dela. Fiquei mais contente do que triste pois sabia que mesmo que não voltasse a encontrá-la podia escrever-lhe do meu planeta e que, para os amigos, muitos anos são como se fossem dias.

 Escrevi-lhe algumas vezes e ela ia-me respondendo, embora demorasse mais tempo do que aquilo que eu desejava. Mas sabia que era uma rosa muito viva e que tinha muito a fazer com as outras rosas. Para além disso também não gostava de escrever. E muito menos sobre ela, claro.

Numa dessas cartas explicou-me que gostava mais de desenhar e que desse modo conseguia falar sobre si mesma. Fiquei logo muito curioso acerca dos seus desenhos porque mesmo conhecendo um pouco da sua essência, uma pessoa gosta sempre de saber o que uma rosa tem para contar. Saber de onde veio; que vento levou a sua semente para aquele planeta; do que é que gosta mais de fazer, essas coisas mundanas e também outras mais sérias. Porque todos nós temos coisas mais sérias para contar a alguém. Um dia hei-de ver um ou outro desenho seu.

Mais tarde, numa altura em que a órbita do seu planeta passou mais perto da Terra, quis encontrar-me com ela. E foi o que combinámos. No dia do nosso encontro uma brisa terrestre, vinda do polo-Norte, não lhe fez nada bem e marcámos para outro dia. No início achei que tivesse sido uma desculpa e que ela não estivesse para me aturar. Mas acho que estava errado, o que me acontece muitas vezes. Sobretudo quando tento adivinhar pensamentos de rosas.

Essa altura foi muito confusa. Desmarquei o nosso encontro. Mas depois quis outra vez encontrar-me e combinámos que o faríamos quando a órbita dos nossos planetas se aproximasse outra vez. Não sei daqui a quanto tempo. Acho que ficou com medo de que eu quisesse arrancá-la da sua terra para a plantar na minha, ficando longe do seu planeta ameno e sentindo-se muito sozinha ali enquanto eu andava na minha vida. Mas não era isso que eu queria. Queria apenas estar mais um pouco com ela. Ela não me disse isto pois as rosas nunca mostram o que sentem, muito menos esta rosa. E o que eu mais fazia era adivinhar os seus pensamentos. Mas como é que um homem consegue adivinhar os pensamentos de uma rosa?

Agora os nossos planetas já estão um pouco afastados, mas quando o vento vem de feição ainda sinto o aroma das suas pétalas. Embora já não nos correspondamos tanto, guardo sempre esta rosa no meu coração e acho que com ela também acontece o mesmo. 

Em vez da tristeza da saudade tenho a alegria de nos termos pertencido um pouco. E quando fecho os olhos, se quiser, consigo vê-la. Com a sua cor amarela, mas de um amarelo limão. Um amarelo fresco e alegre a lembrar o Verão.

Abril de 2015

 

 

O passageiro do seu lado esquerdo

Quando me sentei e vi de quem ia ficar ao lado não fiquei logo entusiasmado, mas fiquei curioso. Deve andar pelos quarenta. Muito direitinha, já com o cinto de segurança apertado, olhando em frente, sem grandes movimentações. Apesar de já não ser obrigatório, estava de máscara. Fiquei curioso, é verdade. Fiquei também um pouco despeitado por não se mostrar minimamente interessada na minha pessoa. Já prestes a levantar voo para regressar ao meu querido país, ela começa a preparar-se para a viagem que iria durar apenas duas horas, tempo suficiente para se ficar enregelado caso não se tomassem as devidas precauções. Pelo seu ritual via-se que era uma habitué. Com casacos e camisolas improvisou duas mantas, uma para as pernas e outra para os ombros, até que o desassossego terminou. Da minha parte apenas deslizei até cima o fecho-éclair do casaco. Como eu estava do lado da coxia, a janela era um óptimo pretexto para poder tranquilamente observá-la, embora apenas de perfil. Nem sequer um pouco enviesada a consegui ver. Os seus olhos cor de mel, juntamente com as pestanas e as sobrancelhas, eram impressionantes. Davam vontade de me diluir neles.

Sempre na esperança de que se dignasse olhar para mim acabei por começar a adormecer. Neste estágio dei por mim a perguntar aos meus botões, ou melhor, ao meu fecho-éclair, que seria se lhe desse a mão. Um gesto que estava mesmo ali ao meu alcance. Mais fácil do que pedir um copo de água. Claro que não o fiz. Perante a indiferença às minhas mal disfarçadas investidas o certo era que a coisa não fosse correr bem. Não levaria um estalo, mas de um gesto brusco não me livraria pela certa. Contudo, ainda dei espaço à incerteza pensando como seria se acontecesse o oposto. Se partisse dela a iniciativa de me dar mão. Claro que não rejeitaria a sua mão, com aqueles dedos esguios e delicados, de unhas bem recortadas e desprovidas de pintura. Acho que começaria a pairar como se a aeronave perdesse de repente a sustentação...E continuei este diálogo comigo próprio, maldizendo a Mãe Natureza por não ter promovido maior igualdade de género nas respostas a este tipo de iniciativas.

Quando acordei ela estava com a mesma postura, mas agora entretida com o telemóvel. Fui deitando o rabo do olho para tentar confirmar, com base no que ela estava a ver, se era portuguesa ou não, mas não me dava grandes hipóteses, colocando a mão esquerda de maneira que eu não conseguisse ver nada. Excepto que estava despida de qualquer anel, informação tão ou mais útil do que a que pretendera saber. Do outro lado seguia outro passageiro que esteve quase todo o tempo a dormir, mas que deu para perceber que não lhe era nada. Pensei sacar do livro que ando a ler não só para me ocupar como também para mostrar um certo nível de erudição que presumi poder marcar pontos a meu favor, mas, pela falta de originalidade, já que muitos à nossa volta estavam a fazer o mesmo, e aproveitando a amálgama de pensamentos que me estava a ocorrer bem como uma coisa que acabara de fazer sem que a devesse ter feito, optei por começar a redigir este post.

Ou seja, neste momento em que estou a escrever ela está aqui ao meu lado, não fazendo a mínima ideia de que estou a escrever sobre si. Nem o vai saber mesmo que queira, pois a minha letra até eu tenho dificuldades em compreender. Pelo menos para já, uma vez que há pouco, quando se ausentou, enfiei nos seus pertences um bilhetinho onde escrevi: "oqueficanagaveta.blogs.sapo.pt  - o passageiro do seu lado esquerdo". Isto significa que neste momento, e agora refiro-me ao momento em que o leitor está a percorrer estas linhas, ela pode já ter feito o mesmo. E pode também ter lido os meus posts anteriores e ter percebido que não sou de fiar, o que não abona nada a meu favor, mas, ainda assim, com o que decidi apesar de tudo publicar, há de ficar no mínimo um pouco lisonjeada. Como irá reagir é que é uma caixinha de surpresas. A profusão de possibilidades daria para escrever um romance, embora o mais provável seja que nada aconteça. Nem sequer noto curiosidade da parte dela em ver o que estou para aqui a escrever... Agora vou pôr o caderno de lado que já estamos quase a tocar na pista.

P.S. Assim que aterrámos ela tirou a máscara o que não me desiludiu de maneira nenhuma. Estava à espera de que nesta altura conseguisse obter alguma atenção da sua parte, mas qual quê. Saí à sua frente e entrei no autocarro na porta do meio na esperança de que me seguisse. Não é que se enfiou na porta de trás sentando-se numa cadeira virada para trás e não me dando qualquer hipótese. Afinal não queria mesmo nada comigo. Um desinteresse mais do que completo. Já no aeroporto desviou-se para o lavabo e eclipsou-se de vez. Nem enquanto esperava pela mala a vi passar. E agora o papelinho está com ela e já não há nada a fazer... ou será que também sonhei com isto?

 

Viciado em ti

Quando estou perto de ti, quando estás ali, a apenas escassos metros de mim, e tenho possibilidade de te observar, não resisto a demorar o meu olhar sobre ti. Gosto de olhar os contornos do teu rosto, as curvas das tuas sobrancelhas o jeito único do teu longo cabelo preto. E melhor que as emoções que experimento nestes momentos, só mesmo se pudesse estar ao teu lado, partilhar contigo aquilo que sou, partilhares comigo aquilo que és. De onde vem o meu amor? porque desejo tanto que um dia fiquemos juntos? Porque me questiono tanto se isso um dia virá a acontecer? Porque tantas vezes tenho o pressentimento de que isso vai acontecer? Não é que sejas minha o que eu quero. Quero antes ser teu. Quero dar-me a ti completamente. Por vezes vejo-te olhar rapidamente para mim e não consigo adivinhar no que estás a pensar. Mas não encontro censura nos teus olhos. Quando penso em ti apetece-me escrever. Deixar rolar a ponta da caneta ao sabor dos pensamentos. Deixá-la gravar as curvas e contracurvas das letras como se os teus cabelos sedosos e encaracolados estivesse a desenhar. E ponho-me a imaginar como seria se pudéssemos passear de mãos dadas. Sentir-me-ia o homem mais feliz do mundo se isso acontecesse. Este desejo de te encontrar para te poder ver parece nunca se desvanecer. Não quero pensar que este amor um dia vai terminar. Quando olho para ti ele é sempre eterno. E recíproco. Não quero pensar que não o possa ser. Apenas a tua doçura me importa quando te vejo. E o meu amor por ti deixa de caber em mim. E desejo voltar a ver-te. Acho que estou viciado em ti.

 

 

Maria João

A Maria João é a dona de um restaurante que passei a frequentar quando mudei de emprego, há cerca de dois anos e meio. Ela e o marido.

É um restaurante pequeno, com cinco ou seis mesas, muito acolhedor. A Maria, como passei a chamar-lhe bastante tempo mais tarde, é daquelas pessoas que põe amor em tudo o que faz. É ela quem cozinha, e fá-lo muitíssimo bem. Mas não foi só por causa da gastronomia que engracei com o restaurante. Foi principalmente por me sentir muito bem recebido ali. Com a Maria sempre preocupada em que não me faltasse nada. Sinto-me bem ali e pelo menos uma vez por semana costumava ir lá almoçar. No tempo dos confinamentos, até ia mais vezes, para levar o almoço para o escritório.

A Segunda-feira era o dia em que acabava por lá ir mais vezes. Neste dia, não sei bem por que razão, costumo sentir uma grande tristeza, e almoçar ali era um bálsamo que me ajudava a suportar melhor o dia. Sentia aquele lugar como um porto de abrigo. Um pouco como ir a casa de uma avó. Sabia que a Maria me iria tratar bem.

Há pouco mais de dois meses o nosso escritório mudou de instalações e fiquei a cerca de 6 km deste meu refúgio. No dia em que fizemos a mudança fui lá tomar um café para me despedir, mas garanti que continuaria a ir lá de vez em quando. Na verdade, continuo a fazê-lo quase com a mesma frequência, mas agora, com um sabor mais especial. A Maria fica ainda mais contente por me ver.

Há tempos contratou uma nova empregada para servir à mesa, a Sara. Passaram várias por lá, mas nenhuma se aguentou muito tempo. A menina Sara, que é como a trato, já que ela me trata por Sr. Miguel, é muito alegre e competente, mas não é por causa dela que lá vou. Acho que tanto ela como a Maria o sabem. A Maria é apenas meia dúzia de anos mais velha do que eu, ou talvez nem tanto. Não poderia ser minha avó. O afeto que temos um pelo outro é o que me faz manter a assiduidade. Gosto de ver aquele brilhozinho nos seus olhos quando lá vou.

Na semana passada fui lá outra vez. Não tinha ido na anterior e não podia deixar o ano findar sem lá voltar. A Maria, como sempre, apareceu a meio da refeição para, com a sua doçura, saber se tudo estava bem. E é sempre um prazer quando isso acontece. Quando fui ter com a menina Sara para pagar, assomei-me à porta da cozinha para desejar Boas Festas à Maria. Parecia que já estava à espera deste momento. Tive vontade de a abraçar, mas não seria apropriado expressar este sentimento, muito menos com a sua ajudante ali ao lado olhando-nos de soslaio, nem com a menina Sara nas minhas costas. Mas o meu desejo acabou por ser parcialmente satisfeito quando a Maria sugeriu dar-me dois beijinhos e eu ter prontamente acedido. Contudo não reprimi a minha vontade de, ao beijar-lhe as faces, lhe cingir levemente a cintura. Não fui inocente como teria sido um neto. Nem tão pouco o foi a Maria. Mas o momento terminou. Apenas os sorrisos permaneceram. Despedi-me da menina Sara, que finge nada disto perceber, e fui-me embora afastando da ideia a hipótese sensata de deixar de ver a Maria.

 

 

 

As flores do jardim

 

Este mundo é um jardim

onde há muita flor bonita.

Gosto muito do jasmim,

da orquídea e da tulipa.

 

E nem sei lá muito bem

de qual delas gosto mais.

Mas não ferem ninguém

as preferências naturais.

 

No que respeita a gente,

não foi assim que se fez.

Decretou-se sabiamente

uma amar de cada vez.

 

Acontece que o amor,

é como a erva daninha:

irrompe com seu vigor

onde menos se adivinha.

 

E se brota outra flor

que encanta o meu ser,

o que me causa mais dor

é não a poder colher.

 

O teu rosto

Nunca vi o teu rosto,
nem tão-pouco quero vê-lo.
Do que o havia suposto
não vá ele ser mais belo.

Se não o vendo me é penoso
refrear minha paixão,
se se revelar formoso,
vai ser mortificação.

Pode ser que seja feio,
com a boca retorcida,
dentes tortos de permeio
e com lábios em ferida.

Se for desta natureza,
talvez possa ofuscar
tua restante beleza
e eu suporte te amar.

 

 

A empregada do café

Tenho por hábito, ao fim-de-semana, tomar café a meio da manhã. Há uns meses resolvi experimentar um café ao pé de minha casa que reabrira depois de um confinamento já não sei de quanto tempo. O café é bom, mas o que mais me agradou foi uma das empregadas que lá trabalha. Apesar de usar sempre máscara, vê-se que é jovem e tem uma silhueta que roça a perfeição. Escusado será dizer que adotei este café como local de culto. O café ali é mesmo bom...

Há cerca de um mês vi-a pela primeira vez sem máscara. Não foi uma grande decepção, mas tinha uma fisionomia completamente diferente da que construira nas semanas anteriores. Bastante menos bonita, mas já nada havia a fazer... Já me tinha afeiçoado a ela e rapidamente passei a gostar do seu rosto e a habituar-me a ele, pois quando simpatizamos com uma pessoa gostamos das suas características independentemente do respetivo feitio. Apesar de ela ser de poucas conversas, tal como eu, era sempre um prazer lá ir. Mesmo não recebendo de sua parte sinais de atenção ou de simpatia.

Hoje, quando lá cheguei, ela estava a limpar uma mesa da esplanada. Procurei dar-lhe os bons-dias, mas ela não olhou para mim, apesar de ter ficado com a certeza de que me vira. Pedi o café ao balcão e ela acabou por se aproximar, mas apenas para registar qualquer coisa no écran táctil, mais uma vez sem me dar oportunidade para a cumprimentar. Como se tornou regra, dirigi-me para uma mesa alta, cá fora, para o tomar sem me sentar. Neste período apenas a vi à distância e, quando decidi ir-me embora, levei a chávena ao balcão mais para ter nova oportunidade de me cruzar com ela do que por amabilidade, embora costume ter esta atenção noutras ocasiões.

Como desejara, nesse momento, vi-a vir na minha direção e preparei-me para me lhe dirigir. Tal não foi necessário porque, antes que isso acontecesse, fez-me o sorriso mais bonito que alguma vez eu pudesse desejar, o qual se espelhou imediatamente na minha cara. Nem foram necessárias palavras para que os votos de bom-dia fossem proferidos. A emoção que tive foi de absoluta felicidade e comecei logo a congeminar futuras abordagens.

Não sei porque preciso tanto de momentos como este. Destas massagens no ego. Talvez por precisar tanto deles ando constantemente a procurá-los. Em geral acontecem quando menos espero e com uma frequência muito inferior àquilo que desejava. Mas quando acontecem, parece que fico nas nuvens, o que compensa a sua raridade. E a vontade de os deixar escritos talvez se prenda mais com o receio de os esquecer do que com a alegria em partilhá-los. Em relação a ela, até aqui eu seguia pelo carreiro, apesar de pisar nas ervas de vez em quando. Com o percalço de hoje fiquei com mais vontade de dele me desviar, apesar de saber que o precipício está mesmo ali ao lado. Uma coisa é certa: vou continuar a tomar café neste lugar...

 

 

Na cozinha

 

Se te sentires sozinha

podes vir ter comigo.

Sentamo-nos na cozinha.

Faço dela teu abrigo.

 

Ponho água a aquecer

para fazer uma infusão.

Se quiseres podes dizer

o que te moi o coração.

 

Enquanto não ferver,

se quiseres, podes chorar.

Isso basta para entender.

Não precisas de falar.

 

Quando voltar do fogão

ponho na mesa a chaleira,

faço a preparação

e sento-me à tua beira.

 

E melhor do que contar

podes somente a cabeça

no meu ombro encostar

até que o mal desapareça.

 

Então, como a uma criança,

te aperto contra o meu peito

abandonando a lembrança

de que o chá já está feito.

 

 

Despedida

Fiquei contente quando te vi esta manhã pensando que bom ela já cá está. Mal sabia que te estavas a despedir da praia… pensei que iria ser um dia como os anteriores. Que iria ter a graça da tua presença durante mais uns tempos. O privilégio da tua beleza. A dádiva da tua graciosidade.

Quando regressei à praia, ainda de manhã, e vi a tua palhota abandonada, ocupada somente pelo vazio, animada apenas pelo movimento ondulante das suas franjas, no íntimo percebi que por ali só restava o vento, também ele deambulando saudosamente…

Ainda quis enganar-me a mim mesmo, tentando convencer-me de que tinhas mudado de lugar, como fazem tantos outros. Mas, à tarde, tive a certeza de que tinhas partido. O mar já não brilhava, as ondas já não sorriam, a praia estava vazia. E eu estava ali, sozinho, numa praia cheia de areia e de pessoas.

Bem me pareceu estranho o teu olhar esta manhã. Demorou um pouco sobre mim, mas não dei importância. Agora que partiste, pergunto-me se terá tido alguma. Estarias tu a despedir-te também de mim? Terás reparado alguma vez em mim? Eu que só te observava pelo canto do olho, ou por detrás dos óculos escuros. Terás adivinhado que, enquanto descias com alegria e beleza em direção ao mar, me estavas a encantar mais do que o mais bonito pôr-do-sol? Deixei transparecer o quão me fascinavas?

És tão bonita!

Decerto não foram os meus olhos que me traíram. Talvez tenhas sintonizado os meus pensamentos, e eu sem nunca o perceber. Agora já partiste. E eu não me pude despedir de ti…

 

A tua voz

Gosto de falar contigo.
De ouvir as notas alegres
que entoa a tua voz.
E quando isso acontece,
és como a flor que aparece
no ramo nu da amendoeira.
Ou como a cotovia,
que contente pousa nele,
encantando com o seu canto
e largando logo a seguir,
sem que o possa impedir.
Quando a tua voz se cala,
guardo no meu coração
a sua reverberação
até que voltes a surgir.

 

 

A dona do clássico

Ela apareceu, numa bonita manhã de sol, quando eu estava numa exposição de carros antigos a admirar um MG B de 1968, o meu clássico preferido. Mais admirado fiquei. Vinha com um vestido primaveril, de flores amarelas sobre fundo branco. Trazia um chapéu de abas largas a condizer, lábios pintados de vermelho e um par de óculos escuros. Junto dela, com aquele carro ao lado, sentia-me a viajar no tempo.

Ainda não tinha perdido a elegância nem a beleza, apesar de já ter passado há muito os cinquenta. Fiquei mais fascinado com ela do que com o MG. Tinha sido da sua mãe e agora queria vendê-lo. Se eu tivesse dinheiro tê-lo-ia comprado logo ali. Tirei uma fotografia ao carro, mas, por falta de ousadia e de esperteza, não a incluí no enquadramento. Hoje, não me perdoo por esta aselhice. Ela é tão bonita e agora nem uma foto sua tenho para tornar mais nítidos os fracos contornos que ainda me restam na memória.

Gostei tanto daqueles minutos de conversa com ela. Era uma mulher muito doce, simpática e agradável. Conservava ainda alguns modos da menina que deve ter sido. Não era nada pretensiosa nem arrogante, mesmo com a beleza que carregava, de que certamente nem se apercebia ou achava ter já perdido. Era muito simples, sem ser subserviente.  Adorei-a. Teria ficado a tarde toda ali a conversar com ela. Nunca me tinha sentido atraído assim por uma mulher tão mais vivida do que eu. Antes de me despedir, com o pretexto do meu interesse na viatura, acabei por lhe pedir um dos seus cartões que tinha sobre o tablier...

Andava inquieto com toda esta situação. Ela não me saía da cabeça e não me parecia tão inacessível quanto o carro. Apetecia-me tanto voltar a vê-la... No dia seguinte não resisti a enviar-lhe uma mensagem. Comecei por falar sobre o carro, claro, mas rapidamente enveredei por outros caminhos, entrando num jogo proibido e a aproximar-me perigosamente da linha que não podia, mas que tanto queria transpor. Não estava a acreditar naquilo que estava a fazer.

Ela era realmente querida. Cheguei a dizer-lhe como a achava bonita e ela não se ia opondo aos meus avanços. Estava tudo a encaminhar-se favoravelmente para a convidar para um cafezinho, mas não me sentia bem a enganar uma mulher como ela. Sentia que ela não merecia isso e acabei por lhe revelar que não era solteiro. Como seria de esperar de uma mulher assim, com a sua inata doçura, colocou um ponto final na conversa.

Não tive outro remédio senão despedir-me, o que também fiz com ternura, prometendo-lhe que não tomaria a iniciativa de voltar a contactá-la. E, para não faltar à palavra dada, vi-me obrigado a rasgar o seu cartão e a apagar do telemóvel tudo o que me pudesse conduzir a ela. Não foi com raiva que o fiz. Antes pelo contrário. Foi com muito amor por ela, mas também com uma enorme mágoa, pois sabia que não voltaria a ligar-me.

Já se passaram três anos e nunca mais soube nada dela. Quanto ao MG B, fiquei a gostar dele ainda mais...

 

Para a Catarina

Querida Catarina,

Não devia estar a escrever-te. Bem sabes que assim é. Mas não consigo aguentar mais. A pressão do que te quero dizer e tenho vindo a reprimir durante tanto tempo excedeu a capacidade de resistência do reservatório. E este é o resultado desta explosão. Sei que sabes o que te vou dizer. Nem precisavas de ler como me te dirijo.  A quantidade de vezes que surpreendeste os meus olhos perdidos em ti já te tinha dito tudo isto.

Admiro-te muito. Reparei em ti logo da primeira vez que te vi, já lá vai tanto tempo... admirei a tua voz, a tua simplicidade, a tua graciosidade, a forma como interages com as outras pessoas. Admirei muito a tua beleza. Que se torna ainda maior temperada com todas as tuas caraterísticas particulares. Talvez sejam mesmo estas que te tornam tão bela. À medida que o tempo foi passando, foram-se intensificando os meus sentimentos por ti.

Apesar de me esforçar para não te seduzir, por saber que não estava correto, era-me muito difícil deixar de o fazer. A vontade de saber se ainda me procuravas era tão grande que cedia à tentação de te contemplar. Porque quando os teus olhos se prendiam nos meus, nem que fosse por um breve instante, fazias-me sentir uma vertigem e uma felicidade que me dava vontade de largar tudo e abraçar-te para sempre.

Houve uma vez, em que já não esperava encontrar-te, que te vi de repente e percebi que também só me tinhas visto naquele instante. Os nossos olhares encontraram-se nesse momento e a minha perplexidade e satisfação foram tão grandes que não o consegui disfarçar. E o melhor de tudo, foi ter-me parecido que o mesmo se passara contigo, pelo menos foi o que me deram a entender os teus quase impercetíveis movimentos. Lembras-te disto? Quem me dera saber se este momento e tantos outros, em que as nossas almas se tocavam, tiveram para ti o mesmo significado que tiveram para mim... Como é bom recordar momentos como este, Catarina. Amo-te tanto... 

A maior parte das vezes tinha a certeza de que também me amavas, o que tornava tudo mais difícil. Mas, por vezes, sentia que te incomodava. Ou por não te quereres envolver com um homem casado ou, talvez por afinal não me amares... Talvez tudo não passasse de uma fantasia que construi a teu respeito. Como as miragens de quem viaja no deserto, que acaba por ver aquilo que tanto deseja ver… doía-me tanto quando não te surpreendia uma única vez a olhar para mim… Quando assim pensava, sentia vergonha do meu comportamento. E nestas ocasiões fazia promessas a mim mesmo de não voltar a importunar-te, chegando mesmo a evitar os locais que frequentavas para não ter de me confrontar com esta luta interior que me era tão penosa.

Agora que te estou a dizer tudo isto, nem sei bem porquê, somente a satisfazer uma vontade instintiva de o fazer, não sei como vai ser quando nos reencontramos. Diz-me que não gostas de mim! Diz-me que te incomodo! Diz-me que te queres libertar e seguir a tua vida! Acho que só assim conseguirei também eu me libertar, pois já não aguento mais.

E mesmo que me ames não posso ir viver contigo. Não posso deixar a minha família e construir outra contigo que, conhecendo-me como me conheço, não iria ter futuro. Apaixonar-me-ia por outra mulher e o meu dilema iria continuar. Só mudavam os atores. Não consigo viver desta maneira. Mas não sei viver de outra... 

Contudo, quero que saibas que foste uma das mulheres que mais amei. Espero que nunca deixes de ser a pessoa adorável que és. Que a tua doçura te seja recompensada ainda nesta vida. Que a tua vivacidade perfume das melhores fragâncias aqueles que te rodeiam. Que continues a ser uma prova de que Deus existe e que encontres um homem decente, que te ame só a ti, a quem também possas dar um vislumbre, como fizeste comigo, de como é o Paraíso.

Não podendo ficar contigo na minha vida, guardar-te-ei sempre no meu coração. Um beijo, Miguel

 

 

 

 

 

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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