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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

Susana II

(Continuação)

Um pouco antes das 19:00 já estava à porta da clínica à sua espera. Não sabia bem o que lhe iria dizer. Não sabia o que iria fazer caso me quisesse. Não sabia se estava na disposição de deixar a minha família ou se isto era apenas uma loucura. Só sabia que não a queria perder. Mas todas estas dúvidas foram desnecessárias. Ela saiu em linha recta. Com os óculos escuros já postos. Parecia um foguete. Tive que interpelá-la, caso contrário ela seguiria o seu caminho. Percebi logo tudo, claro. Com um ar carregado poupou nas palavras e acabou dizendo-me que estávamos conversados. Eu, sem ter também retirado os óculos escuros, pois não queria que visse os meus olhos sem que pudesse ver os seus, disse-lhe adeus e, orgulhosamente, fui-me embora sem me voltar para trás. A dor que senti foi então lancinante. Comprei um maço de tabaco e deambulei durante mais de uma hora, fumando cigarro atrás de cigarro. Não conseguia chorar. Os meus olhos estavam tão secos como todo eu estava seco.

Nada disto batia certo. A Susana da tarde nada tinha a ver com a da manhã. O facto de ter escondido os olhos por detrás daquelas lentes não ocultou a tristeza que consegui ver nela. Nunca me conformei com este desfecho. Tinha a certeza, admitindo sempre que pudesse estar enganado, de que a sua atitude tinha sido meramente racional. Sabia que se ia casar no mês seguinte. Não o soube por ela, pois nunca a ouvira tocar nesse assunto. Soube-o pelas suas colegas. Não acreditava no seu amor por ele.

Andei sem saber o que fazer. Alimentava uma esperança de a encontrar casualmente pelo que a procurava em todos os sítios para onde ia. Sabia que nos cruzávamos no caminho, em sentidos opostos, pelo que procurava o seu carro entre as centenas que passavam por mim. Por duas ou três vezes a vi, mas de que me servia isso? Perdi o sono e nessas insónias ia elaborando uma carta de despedida para lhe enviar. Andei a escrevê-la às escondidas durante todas as férias de verão. Quando achei que estava pronta, transcrevi-a para papel de carta, para que fosse com a minha letra. Coloquei-a num envelope ligeiramente elaborado, mas sem o perfumar. Enderecei-a a si, mas com ambos os apelidos, o de solteira e o de casada, pois já se encontrava há quatro meses neste estado. Como já sabia a sua hora de saída fui colocá-la, um pouco antes, no para-brisas do seu carro. Tive que me resguardar nas imediações para ter a certeza de que a carta chegava a bom porto. Ela deve ter percebido de imediato de quem era a carta e ainda olhou em seu redor a ver se encontrava o presumível autor, mas não me viu.

Nesse mesmo dia, tal como adivinhara, bloqueou-me nas redes sociais, e nunca mais me lhe dirigi. Continuava inconformado, apesar do tempo que já tinha decorrido desde a última vez que nos víramos. Não havia meio de passar esta minha azia, mas nada mais podia fazer. Foi muito difícil suportar os meses seguintes. Pensava muito nela. Revisitava todos os momentos vividos com ela. Tentava compreender o que se tinha passado e continuava a procurá-la nos sítios para onde ia. Podia ter ido ter com ela ou tê-la contactado utilizando outros subterfúgios, mas sabia que isso a iria afastar ainda mais de mim, pelo que nunca mais a procurei ativamente. Contudo mantinha uma esperança inabalável de que a iria encontrar e de que iríamos finalmente poder cair nos braços um do outro. Pensava na carta que lhe tinha escrito, que acabei por perder o original, por se ter danificado o respetivo ficheiro. Imaginava como teria reagido. No que estaria a sentir. O que teria feito à pequena medalha que lhe havia enviado dentro da carta dizendo-lhe que me tinha acompanhado, ao peito, durante metade da minha existência. Se a usaria ou se a teria deitado fora ou arrumado no fundo de uma gaveta. Por vezes ainda me questiono sobre isto.

Não sei. Nunca mais a voltei a ver. Não acreditava que o destino me iria pregar uma partida destas, mas, a partir de certa altura, comecei a perder a esperança de reencontrá-la. Andei insone e deprimido durante meses. Parei no tempo durante anos. Até me dar conta de que já estava muito mais velho, sem me ter apercebido de como o tempo tinha passado... apenas ao fim de cerca de três anos me apercebi de que não havia pensado nela no dia anterior. Estava finalmente curado! Mas a tristeza e a angústia perduraram por muito mais tempo...

A Susana foi a maior paixão da minha vida. Talvez nunca tenha amado tanto uma mulher como a ela. Foi a mulher que mais me fez sofrer, mas também a que proporcionou dos mais felizes momentos que tive a sorte de experimentar. Hoje em dia raramente penso nela. E quando penso já não me causa sofrimento. Gostava de voltar a encontrá-la, mas já não tenho ilusões.

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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