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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

Susana

Uma década depois já não me é penoso falar da Susana. Convivi com ela apenas quatro meses, mas foi o tempo suficiente para que a minha vida nunca mais fosse a mesma. O destino, tão depressa me ofereceu a oportunidade de conhecer e amar tão intensamente uma mulher, como roubou para sempre aquilo que parecia vir a ser eterno.

A Susana foi a fisioterapeuta que reabilitou o cotovelo a que tinha sido operado. Não era a única naquela clínica, nem tão-pouco me estava atribuída. Ficava com ela como podia ficar com qualquer uma das outras. No início achei-as todas bonitas. Era um sítio onde qualquer homem se sentiria bem. Mas a Susana era de uma beleza invulgar. Não no sentido de ser mais bela do que o normal, mas sim pela sua especificidade, possuindo traços muito próprios e muito agradáveis. Fui-me afeiçoando a ela. E ela também se foi afeiçoando a mim.

Quatro meses depois decidi interromper a terapia por força de ter mudado de emprego. Apesar da insistência da sua parte em continuar os tratamentos, já que não implicava um desvio por aí além nas minhas deslocações casa trabalho, quis aproveitar para o fazer, pois a situação entre nós parecia estar a tomar um rumo que, apesar de muito o querer tomar, não podia permitir. Nas últimas semanas antes de sair tudo evoluía de uma forma muito rápida. Comecei a perceber que me estava a apaixonar por ela, por causa do aperto que experimentava sempre que pensava que não a ia ver mais. Não queria que o último dia chegasse e sentia que o mesmo se passava com ela.

Numa das últimas sessões fez-me um exercício que nunca havia feito antes, o qual exigia que pegasse na minha mão. Não estava a acreditar no que estava a acontecer! Aproveitando aquela oportunidade, e após uma grande hesitação, por medo de ser rejeitado, atrevi-me a apertar a sua mão na minha. Não sei por quanto tempo permanecemos assim. Tinha fechado os olhos e entrado numa espécie de transe, num desfrutar de um gozo pleno que nunca antes tinha sentido. Só voltei a mim quando a Susana decidiu terminar o exercício e me apercebi de que, quando tentou libertar-se da minha mão, esta se entrelaçara na sua, não se querendo deslargar.

Quando chegou a última sessão, em que passámos o tempo a falar da minha eventual continuidade, acabámos por nos despedir sem demasiada efusão. Apenas com dois inocentes beijinhos, o que já foi fora do habitual. Quando me vi cá fora, sabendo que nunca mais a ia ver, senti uma amargura como nunca tinha sentido antes. O mundo ficou para mim, de repente, completamente cinzento. Nada perecia fazer sentido. Parecia que tinha morrido. A sessões eram à hora do almoço. Ainda fui trabalhar à tarde, não sei como, tal era a tristeza que sentia. Decidi então que isto não podia ficar por aqui. Que sentido tinha tido esta conjugação de astros se era para terminar desta maneira?

Acabei por encontrá-la nas redes sociais e por lhe enviar uma mensagem inocente. Respondeu-me, também inocentemente. Na quarta vez que lhe escrevi, já sem receber resposta às anteriores, deixei de ser inocente. Escrevi-lhe a correr, dizendo-lhe que só me apetecia ir ter com ela, que não sabia o que se estava a passar comigo, que já não tinha idade para estas coisas. Tinha de ir vê-la. Não suportava o seu silêncio. Tinha de saber o que sentia por mim. Ainda fiz por várias vezes, ao fim do dia e em vão, os 30 km que nos separavam para ver se a encontrava. Só quando decidi fazê-lo à hora do almoço é que isso acabou por acontecer. Ela estava a regressar à clínica enquanto eu esperava, próximo da porta. Quando me viu ficou espantada. Apanhei-a completamente desprevenida e, sem tempo para pensar. Acabou por ter uma reação que era tudo menos de quem não me queria ver. Ia ao seu lado uma colega, que eu também conhecia que, perante tal reação, se sentiu a mais e prosseguiu o seu caminho, sem sequer me cumprimentar. Como vi que não tínhamos tempo para conversar, perguntei-lhe a que horas saía para nos encontrarmos nessa altura. Ela estava com um sorriso radiante e um brilho nos olhos que jamais esquecerei. E eu explodia de alegria por dentro. Mal consegui trabalhar nessa tarde ansioso para que o tempo passasse.

(Continua)

 

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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