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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

Patrícia

Já tinha como certo que a história que estou a escrever seria muito mais longa, não fosse o desfecho totalmente inesperado que acabou por vir a ter. Conheci a Patrícia num curso de formação. Um curso pequeno, de apenas quatro aulas, em duas semanas. Os formandos não eram muitos. A Patrícia captou de imediato a minha atenção. Jovem, elegante, alta e bonita. Tinha uns cabelos pretos, muito longos, soltos e ligeiramente ondulados. Deitei-lhe o olho por várias vezes, porém, sem chamar a atenção. Durante a formação houve necessidade de agrupar as pessoas de acordo com as suas características e bingo! Eu e a Patrícia ficámos no mesmo grupo! A sorte estava do meu lado. No trabalho que desenvolvemos em grupo, em que éramos quatro pessoas, sendo ela a única mulher, tivemos de nos expor um bocado e fiquei nessa ocasião a saber que ela era casada. Fiquei desapontado, mas, ganhando consciência de que eu também o era, esse detalhe tornou-se irrelevante. Para além do mais não tencionava fazer nada de mal. É sempre assim. Vamo-nos aproximando do fogo até ao limite de nos queimarmos...

Engracei muito com ela. Dava-me prazer a sua companhia e intuía que ela também se sentia bem com a minha. Descobrimos muitas características em comum. Ficava desejoso para que chegasse a aula seguinte e, à medida que isso ia acontecendo, mais próximos nos íamos tornando.

Mais depressa do que desejava, a última aula chegou. Nesta, houve a necessidade de nos juntarmos dois a dois. Por sorte, e talvez por vontade mútua, acabámos por ficar juntos. Até agora as coisas não podiam estar a correr melhor. Foi tão bom este momento que passei com ela... senti que ela também estava a gostar. Sentia-a um pouco ansiosa pela forma como ia fazendo e desfazendo laços no seu bonito cabelo. Estava já a desconfiar de que esta aula não seria a última ocasião em que íamos estar juntos.

Quando a aula acabou e os colegas foram abandonando a sala, a Patrícia dirigiu-se a um dos nossos colegas de grupo, que estava ao meu lado, ambos virados para ela, e despediu-se dele. Quando esperava que ela fizesse o mesmo comigo, ansiando que os seus olhos me dissessem, mais do que verbalmente, aquilo que tanto queria ouvir, ela virou costas sem me dirigir qualquer palavra e muito menos um olhar. Foi-se embora ignorando-me por completo. A minha perplexidade foi indescritível. Ainda acompanhei visualmente todo o caminho que fez até à porta, com a certeza que nesse derradeiro momento me presenteasse com um último e desafiador olhar, mas enganei-me redondamente. Foi resoluta até ao fim.

Confesso que não esperava este final. Senti-me rejeitado e não consegui ter reação. Talvez um pouco condicionado pelo orgulho. Mais tarde ainda tentei contactá-la pelas redes sociais. Deixei-lhe uma ou duas mensagens, mas a sua resposta foi a mesma que me dera na despedida. Para ela eu tinha morrido ou, melhor, nunca tinha existido. Quando tentava compreender esta atitude ainda coloquei a hipótese que ela me estivesse a pôr à prova. Que tivesse feito aquilo para que eu saísse da sala atrás de si e aí, a sós, nos despedíssemos, talvez até nos beijássemos. Mas perante as posteriores atitudes percebi que este epílogo, à filme, não estava nas suas intenções.

E foi assim, com um golpe seco e certeiro, que a Patrícia pôs fim a esta história. Não sei se apenas para me poupar a grandes sofrimentos, se também, um pouco a si própria. A verdade é que resultou. Por outro lado, nunca mais a esqueci...

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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