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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

A miúda no comboio

Andar de transportes públicos traz por vezes surpresas agradáveis. Hoje de manhã fui de comboio. A carruagem não ia muito cheia e eu era o único num conjunto de quatro bancos. Na outra ala, nos bancos contíguos, ia uma rapariga que não me chamara ainda a atenção, até porque eu ia a ler um livro. Só reparei nela quando o revisor a repreendeu por não trazer a máscara colocada. Fiquei então a observar a situação. Como ela estava sem máscara, coisa rara nos dias que correm, tive oportunidade de lhe ver o rosto. Era bem bonita! Jovem, cabelos encaracolados cor de mel, não muito compridos. Um rosto com traços arredondados e umas sobrancelhas muito bem desenhadas. Não lhe conseguia ver bem os olhos, pois ela estava de perfil, mas reparei, sobretudo, na sua atitude perante a situação.

Ela não levava máscara porque não tinha. Tinha-se esquecido de trazer de casa. Então, sempre a sorrir, mas sem faltar ao respeito, ia escondendo a cara na gola do seu casaco ao mesmo tempo que se desculpava e dizia que ia sair já na estação seguinte.

Acho que nenhuma autoridade conseguiria resistir àquele seu ar, ao mesmo tempo suplicante, doce e atrevido. O revisor encolheu os ombros e prosseguiu no exercício da sua  principal função.

Entretanto eu já tinha verificado que tinha uma máscara nova que lhe podia dar caso fosse necessário. Não a ofereci logo porque não queria parecer aquele marialva que acende o isqueiro sempre que vê uma donzela a rapar de um cigarro, fazendo-a sentir-se em dívida. Como também ia sair na estação seguinte deixei esse gesto para mais tarde, se viesse a ser necessário.

Quando o comboio começou a abrandar arrumei o livro na mochila e dirigi-me para a porta. Era provável que ela fosse utilizar a mesma porta, a menos que mudasse de carruagem ou optasse pela porta do meio. Ou que não tivesse dito a verdade ao revisor. Felizmente não me enganei. Pouco depois, ela levantou-se também e colocou-se ao meu lado. Os últimos momentos na sua presença estavam agora prestes a terminar e eu não dispunha de tempo para estar com hesitações. Dirigi-me então a ela, tratando-a por tu, contrariamente ao que havia decidido fazer momentos antes, e perguntei-lhe se ia sair por não ter máscara ou se aquele já era o seu destino pré-determinado. Foi nesta ocasião que consegui ver os seus olhos em pormenor. Eram de uma beleza estonteante. De um verde-esmeralda, que combinava com o verde do seu casaco. Com uma tonalidade muito limpa, homogénea e forte. Estes olhos enquadrados pelas suas sobrancelhas eram de cortar a respiração. Ainda por cima sem máscara era-me possível ver todas as suas expressões.

Ela respondeu-me que ia sair ali de qualquer maneira e eu, em vez de lhe perguntar se precisava de uma máscara, até porque ainda teria certo trajeto a percorrer, disse-lhe somente que se precisasse de permanecer no comboio lhe teria cedido uma. Em alturas como esta o meu cérebro fica sem capacidade de resposta e acabo por dizer coisas um bocado estapafúrdias...

A porta acabou por se abrir e eu saí à sua frente virando à direita logo depois, paralelamente ao cais. Não conseguia perceber se ela vinha atrás de mim, na minha direção, pelo que me virei para trás, não só para me esclarecer, como para a ver uma vez mais. Neste breve momento vi, com algum desagrado, que ela tinha seguido em frente, perpendicularmente ao comboio, tornando este momento defenitivamente derradeiro. Mas, sem estar absolutamente à espera, constatei que ela estava com a cara voltada para mim, para se certificar, como certamente adivinhara, que eu me ia voltar para trás para a ver. Ou, também ela, na esperança de me ver pela última vez. O certo é que ela estava com um sorriso que me encheu de alegria. Como já me encontrava sem máscara, acho que ela ainda conseguiu ver o meu. Um sorriso de felicidade que perdurou até agora.

 

 

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Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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