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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

A miúda no café

 

Um dia, estava eu a tomar o pequeno-almoço, quando entra uma jovem mulher, que não há ainda muito tempo seria uma miúda, que me chamou de imediato a atenção. Não era daquelas deslumbrantes, ou demasiado sexies, se bem que as roupas, mesmo que um pouco invernosas, deixavam antever um corpo que não devia ser nada de deitar fora. Era ligeiramente alta, elegante, com uma silhueta bastante apelativa. Generosas algumas partes. Mas fiquei impressionado sobretudo com o seu rosto. Apesar de ter algumas borbulhas, era um rosto diferente. Morena, olhos pretos, cabelos compridos e ligeiramente encaracolados, que muito me atraiu. O certo é que os meus olhos ficaram nela e seguiram-na até se encontrar ao balcão para fazer o seu pedido. Notei que neste entretanto ela olhou em redor e reparou que eu a estava a observar. Apesar disso, pensando que estava tudo estragado, rejubilei-me quando vi que se dirigiu para a mesa ao meu lado, embora sempre fingindo que não reparava na minha, agora já mais disfarçada, fixação.

Colocou as coisas no lado da mesa em que ficaria virada para mim mas, arrependendo-se, acabou por se sentar no lado oposto, ficando, tal como eu, virada para a janela da rua. Quando por fim decidi ir-me embora, depois de a ir observando pontualmente, mas sem nunca cruzarmos olhares, notei nela o desassossego próprio de quem decidiu também ir-se embora. Fui pagar e, pelo reflexo do espelho que se encontrava à minha frente, atrás do balcão, pude confirmar as minhas suspeitas. Apressei-me a tratar daquele assunto para fazer coincidir as nossas saídas, uma vez que ela já estava de contas feitas. Nem sei bem porquê, pois sabia que não ia dar nenhum passo para a abordar, mas talvez tivesse alguma esperança de que fosse ela a fazê-lo.

Saímos por portas diferentes, ambas para a mesma rua, mas eu estava um pouco adiantado e, já cá fora, tive que fazer um compasso de espera, demorando-me a arrumar o recibo e as moedas no bolso, para que não a ultrapassasse. Por fim pude avançar, ligeiramente atrás e ao lado dela, deleitando-me com a sua beleza e tentando perceber o que estaria ela a pensar. Uma ou duas vezes vi-a dar um relance para o lado, nitidamente para ver pelo canto do olho o que eu andava a tramar. Quando chegou a travessa onde eu tinha que virar, não o fiz, continuando em frente. Mas, certo de que isto não me ia levar a lado nenhum, acabei por me deter um pouco mais à frente, numa tabacaria, até porque queria comprar um jornal, e deixei-me ficar parado, seguindo-a com o olhar. Por fim ela dobrou a esquina mas, antes, ainda voltou a cara e os nossos olhares puderam finalmente encontrar-se. Este breve instante pareceu-me eterno. Fiquei ali especado até que ela desaparecesse totalmente da minha vista, com a frustrante sensação de mais uma oportunidade perdida, apesar da satisfação de ter sentido que ela gostou de mim. Na verdade talvez ela apenas tenha gostado de se sentir alvo de atenção pois, mesmo tendo o pressentimento de que haveria de voltar a vê-la, tal nunca veio a acontecer, apesar das vezes que voltei àquele café na esperança de a poder reencontrar...

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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