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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

A Linda

Ainda lá estão os mesmos bancos de jardim em ferro fundido. No parque público da vila onde vivi até aos meus vinte e tal anos, altura em que me mudei para a vila ao lado. Ainda repousam solitários e observadores sob o caramanchão que se estende ao longo do muro. É nesses bancos que ficam alguns pais ou avós a ver os seus meninos brincarem nos baloiços, que hoje já são mais modernos. Nos antigos baloiços andei eu muitas vezes. No banco só me lembro de me ter sentado uma vez. Não me lembro muito bem de que idade tinha. Talvez já tivesse entrado para a universidade. Devia ter uns dezassete ou dezoito anos. Quando me sentei neste banco não foi para ver ninguém a andar de baloiço. Nem sequer era de dia. Estava a haver uma festa no parque. Se não me falha a memória era uma festa de angariação de fundos para os escuteiros, aos quais eu pertencia. Talvez por isso tenha lá ido. Mas não estava na organização. Estava lá alguém a cantar.

O parque era a dois minutos da casa dos meus pais, onde morava. Na minha rua moravam outros miúdos de quem éramos amigos, eu e os meus irmãos. Passávamos as tardes de sábado e de domingo a andar de bicicleta e a inventar coisas para fazer. Eu era o mais velho de todos. Para além da minha irmã, um ano mais nova do que eu, havia mais duas meninas no grupo, ainda mais novas. Também havia outros três rapazes. Ao todo éramos oito.  A Linda era dois anos mais nova do que eu, da idade do meu irmão. Éramos crianças. A Linda foi para mim uma criança durante muito tempo, mas, quando eu tinha dezoito anos, ela já tinha dezasseis e estava a ficar uma mulher. E linda como o seu nome. Por vezes já não a via como criança.

Aquela festa atraiu-os ao parque, não sei se todos, se apenas alguns, mas a Linda estava lá. Encontrámo-nos e juntámo-nos uns quantos a conversar e passado algum tempo, já não sei muito bem como, aconteceu sentar-me naquele banco.  Sentei-me com a Linda. Ela trazia umas calças de ganga que mostravam muito bem aquilo em que já tinha tido oportunidade de reparar algumas vezes, mas que afastava dos pensamentos, focando-me na sua imagem de criança a andar na sua BMX. E agora estávamos ali sentados, os dois sozinhos, debaixo de um caramanchão sem iluminação natural nem artificial, a vermos ao longe a banda a tocar. Ela estava alegre e sorridente. Percebi que não iria tomar qualquer iniciativa, mas senti que estava à espera de que eu o fizesse. E ali estava eu, com uma parte de mim a querer fazer coisas que a outra parte não queria... Neste caso nem foi o medo da rejeição que me travou. Foi mais o sentir que não devia. Nunca tinha pensado nela de outra maneira. Ai se fosse hoje... hoje não tenho a inocência que tinha. Os anos foram me tornando mais insensível, mais egoísta, mais sacana. Hoje ter-me-ia dito: aproveita Miguel, que tão cedo podes não ter outra oportunidade. Ela é tão bonita e tão boa, já viste o prazer que podes ter com ela? E dir-me-ia que estúpido que és se não aproveitares. Não vês que ela também quer? Por vezes acho que fui estúpido. Acho que não teria feito grande mal. E parece-me que ela também só se queria divertir um pouco. Outras vezes acho que fiz o que estava correcto, e isso é uma coisa que cada vez faço menos. Um dia vou voltar a sentar-me naquele banco. Pode ser que lá encontre um pouco da virtude que perdi.

 

Texto revisto por Nuno Almeida Santos

 

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Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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