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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

A Eva

Conheci a Eva num encontro orquestrado pela minha irmã para me dar a conhecer umas recentes amigas, que moravam há pouco nas redondezas. Eram umas quantas miúdas e a Eva nem foi a que me chamou de imediato a atenção, embora tenha ficado com boa impressão dela. Constatei que era uma pessoa muito directa, algo fria, o que nem por isso me desagradou. Houve entusiasmo nesse encontro. Éramos cerca de uma dúzia de jovens, maioritariamente encalhados e saímos do evento com uma enorme vontade de nos reencontrarmos. Foi assim que começámos a combinar cafezinhos onde aparecíamos sempre uns cinco ou seis. Eu a e Eva não falhávamos um e não foi necessário muito tempo para começar a olhar para ela com outros olhos. O que me chamou mais a atenção foram os dois topázios que ornamentavam o seu rosto delicado. Quando olhava para eles sentia iluminar-se o pedaço mais recôndito da minha alma. Por vezes ficávamos uns segundos, ou talvez apenas uma fracção de segundo, a olharmo-nos mutuamente e a emoção que sentia ia ganhando intensidade. A Eva não era discreta deixando-me perceber que tinha uma certa inclinação por mim. Mas eu nem sempre tinha esta convicção, o que me fazia adiar qualquer iniciativa pois, estreante nestas matérias, não queria dar um passo em falso. Por outro lado não podia desperdiçar muito tempo, dado que havia mais pombos a rondá-la. E foi assim que, qual pássaro que deixa pela primeira vez o ninho, me lancei, surpreendendo-me um pouco por estar a conseguir voar.

A Eva é uma pessoa excepcional. Foi sempre muito carinhosa comigo, mandava-me bilhetinhos, queria estar sempre comigo, mas este seu entusiasmo deixava-me um pouco apreensivo. Tinha a certeza de que lhe ia passar e ficava sempre a aguardar a sua expectável desilusão. Estava certo de que se iria desinteressar mal me conhecesse melhor e eu, para arrumar o assunto de vez, não escondia as minhas particularidades. Mas o tempo ia passando e ela mantinha-se fiel ao que me mostrara desde o início. O oposto de mim. De funcionamento muito linear. Sem problemas existenciais, sem complicações. Pão, pão, queijo, queijo. E continuava a gostar de mim... Pensei muitas vezes se deveria deixá-la para procurar aquela mulher que me fizesse querer dar tudo por ela. Mas concluía sempre que nunca iria encontrar uma que eu amasse e que me amasse da mesma maneira. Requisito para mim indispensável, pois experiência em amores não correspondidos tinha eu em barda. Não sei se existe relação em que ambos se amem com a mesma intensidade e de forma constante. Acho que há sempre um que ama mais do que o outro, ainda que nem sempre se mantenha a ordem.

Pesando todos os prós e todos os contras acabei por jogar pelo seguro e decidi pedi-la em casamento. Sabia que me faltava aquele fogo que arde sem se ver, mas tendo em conta a compatibilidade das nossas personalidades e a minha vontade de ter uma relação duradoura, para o resto da vida melhor dizendo, achei que esta seria a melhor decisão. O que não esperava é que aquele fogo se fosse acender aqui e ali, por vezes com tanta intensidade que por pouco não incendiou todo este engendramento. O meu lado religioso também teve, e continua a ter, muita influência em todo este percurso. Muitas vezes senti que foi Deus quem me apresentou a Eva. E sempre que vejo a sorte que tive em encontrar uma mulher com os seus predicados, acabo por Lhe dar razão e a sentir que seria um homem muito estúpido se a abandonasse. Penso que a Eva sempre soube que o meu amor por ela não é muito grande, mas nunca senti que isso fosse para si um problema. Talvez tenha um tipo de personalidade, incompreensível para mim, que precise mais de amar do que de ser amada. E assim estamos bem um para o outro... Com o passar dos anos acho que estamos é habituados um ao outro. Já não estou tão seguro do seu amor por mim. Creio que é um assunto pouco relevante para ela. Mas sinto-a feliz, em paz consigo própria, e isso também conta muito.

É bom viver com a Eva. Gosto de adormecer abraçado a ela. Gosto do seu carinho. Respeito-a muito. Admiro muito a sua personalidade forte, a sua segurança. A sua forma simples de ver a vida, o seu pragmatismo. Talvez um dia lhe venha a dizer "amo-te"...

 

 

 

 

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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