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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

A dona do clássico

Ela apareceu, numa bonita manhã de sol, quando eu estava numa exposição de carros antigos a admirar um MG B de 1968, o meu clássico preferido. Mais admirado fiquei. Vinha com um vestido primaveril, de flores amarelas sobre fundo branco. Trazia um chapéu de abas largas a condizer, lábios pintados de vermelho e um par de óculos escuros. Junto dela, com aquele carro ao lado, sentia-me a viajar no tempo.

Ainda não tinha perdido a elegância nem a beleza, apesar de já ter passado há muito os cinquenta. Fiquei mais fascinado com ela do que com o MG. Tinha sido da sua mãe e agora queria vendê-lo. Se eu tivesse dinheiro tê-lo-ia comprado logo ali. Tirei uma fotografia ao carro, mas, por falta de ousadia e de esperteza, não a incluí no enquadramento. Hoje, não me perdoo por esta aselhice. Ela é tão bonita e agora nem uma foto sua tenho para tornar mais nítidos os fracos contornos que ainda me restam na memória.

Gostei tanto daqueles minutos de conversa com ela. Era uma mulher muito doce, simpática e agradável. Conservava ainda alguns modos da menina que deve ter sido. Não era nada pretensiosa nem arrogante, mesmo com a beleza que carregava, de que certamente nem se apercebia ou achava ter já perdido. Era muito simples, sem ser subserviente.  Adorei-a. Teria ficado a tarde toda ali a conversar com ela. Nunca me tinha sentido atraído assim por uma mulher tão mais vivida do que eu. Antes de me despedir, com o pretexto do meu interesse na viatura, acabei por lhe pedir um dos seus cartões que tinha sobre o tablier...

Andava inquieto com toda esta situação. Ela não me saía da cabeça e não me parecia tão inacessível quanto o carro. Apetecia-me tanto voltar a vê-la... No dia seguinte não resisti a enviar-lhe uma mensagem. Comecei por falar sobre o carro, claro, mas rapidamente enveredei por outros caminhos, entrando num jogo proibido e a aproximar-me perigosamente da linha que não podia, mas que tanto queria transpor. Não estava a acreditar naquilo que estava a fazer.

Ela era realmente querida. Cheguei a dizer-lhe como a achava bonita e ela não se ia opondo aos meus avanços. Estava tudo a encaminhar-se favoravelmente para a convidar para um cafezinho, mas não me sentia bem a enganar uma mulher como ela. Sentia que ela não merecia isso e acabei por lhe revelar que não era solteiro. Como seria de esperar de uma mulher assim, com a sua inata doçura, colocou um ponto final na conversa.

Não tive outro remédio senão despedir-me, o que também fiz com ternura, prometendo-lhe que não tomaria a iniciativa de voltar a contactá-la. E, para não faltar à palavra dada, vi-me obrigado a rasgar o seu cartão e a apagar do telemóvel tudo o que me pudesse conduzir a ela. Não foi com raiva que o fiz. Antes pelo contrário. Foi com muito amor por ela, mas também com uma enorme mágoa, pois sabia que não voltaria a ligar-me.

Já se passaram três anos e nunca mais soube nada dela. Quanto ao MG B, fiquei a gostar dele ainda mais...

 

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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