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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

Despedida

Fiquei contente quando te vi esta manhã pensando que bom ela já cá está. Mal sabia que te estavas a despedir da praia… pensei que iria ser um dia como os anteriores. Que iria ter a graça da tua presença durante mais uns tempos. O privilégio da tua beleza. A dádiva da tua graciosidade.

Quando regressei à praia, ainda de manhã, e vi a tua palhota abandonada, ocupada somente pelo vazio, animada apenas pelo movimento ondulante das suas franjas, no íntimo percebi que por ali só restava o vento, também ele deambulando saudosamente…

Ainda quis enganar-me a mim mesmo, tentando convencer-me de que tinhas mudado de lugar, como fazem tantos outros. Mas, à tarde, tive a certeza de que tinhas partido. O mar já não brilhava, as ondas já não sorriam, a praia estava vazia. E eu estava ali, sozinho, numa praia cheia de areia e de pessoas.

Bem me pareceu estranho o teu olhar esta manhã. Demorou um pouco sobre mim, mas não dei importância. Agora que partiste, pergunto-me se terá tido alguma. Estarias tu a despedir-te também de mim? Terás reparado alguma vez em mim? Eu que só te observava pelo canto do olho, ou por detrás dos óculos escuros. Terás adivinhado que, enquanto descias com alegria e beleza em direção ao mar, me estavas a encantar mais do que o mais bonito pôr-do-sol? Deixei transparecer o quão me fascinavas?

És tão bonita!

Decerto não foram os meus olhos que me traíram. Talvez tenhas sintonizado os meus pensamentos, e eu sem nunca o perceber. Agora já partiste. E eu não me pude despedir de ti…

 

O cafezinho com a Marisa

A Marisa respondeu à minha mensagem confirmando o nosso encontro para as 18:00, embora tenha deixado claro que às 18:30 teria que sair por causa de um compromisso. Fiquei exultante. Meia hora bastava-me para tirar as imensas saudades que já tinha.

Telefonara-lhe na véspera do dia em que ia regressar a casa, depois de uma semana deslocado em trabalho. Como ia passar na sua terra lembrei-me de combinar um cafezinho. Nem estava a acreditar que finalmente ia estar com ela depois de cinco anos em que apenas nos cruzámos ocasionalmente e sem tempo para grandes conversas.

Conheci-a nos Açores por motivos profissionais. Demo-nos muito bem durante aquele mês em que nos víamos todos os dias. Estávamos muitas vezes juntos. Almocei com ela bastantes vezes, frequentemente a sós. Estávamos muito à vontade um com o outro. Fiquei a gostar muito dela. É um pouco reservada, muito sensata, bonita, com um sorriso só seu, aliás, quase tudo é só seu. A doçura, a voz, o sotaque, o olhar, o nervosismo que se descobre nas suas unhas, a ironia.

Nunca percebi muito bem o que sinto pela Marisa. Nunca senti aquela paixão louca de pensar nela o tempo todo. Apenas uma vontade enorme de estar com ela. Porém, a nenhuma outra mulher escrevi um conto, nem poemas como aqueles que lhe dediquei.

Também nunca percebi o que sentia a Marisa por mim. Declinou alguns convites que lhe fiz, mas aceitou outros que acabaram por não se realizar por minha causa. Nunca acreditei que gostasse de mim mais do que de um amigo. Mas isso também não me importava. Desde que pudesse falar com ela de vez em quando, tudo estava bem. Cheguei mesmo a julgar que as suas inclinações amorosas se dirigiam ao seu género o que até me fez estar mais à vontade, pois deste modo sabia que não iria sofrer por minha causa.

Mas a hora do nosso reencontro finalmente tinha chegado. Estava bastante nervoso. Parei o carro, mal estacionado, na bomba de gasolina que havia mesmo ao lado do seu trabalho. Cheguei dez minutos antes da hora e dei-lhe a conhecer que já lá estava. Respondeu-me que tinha sido agarrada pelo chefe e que ainda iria demorar mais um pouco. Nesse tempo ia imaginando como iria aparecer. Se se teria arranjado para a ocasião. Ia ficando cada vez mais nervoso e, para combater esta ansiedade, decidi abastecer o carro, já que tinha ainda uma longa viagem pela frente.

E foi nessa altura que ela apareceu. Não estava nada como a esperava. A forma como vinha vestida demonstrou que não me queria impressionar. Abri-lhe um sorriso de enorme contentamento e o sorriso com que me retribuiu fez-me esquecer a decepção inicial. Fui estacionar o carro e dirigimo-nos para o café. Íamos conversando enquanto caminhávamos e, com o meu entusiasmo, por vezes tropeçava nas palavras. Ela fez o mesmo por duas vezes, mas nas pedras da calçada, o que fingi não notar. Não estava à espera deste seu nervosismo. Ao mesmo tempo o meu ia-se apaziguando.

Sentámo-nos a uma mesa na esplanada e quando fui lá dentro fazer o pedido referi que era para a mesa onde se encontrava aquela rapariga de calças encarnadas. Este momento provocou-me uma emoção inesperada. Parecia que estávamos juntos desde sempre. Tomámos o café e conversámos muito para além da hora do seu suposto compromisso, até que decidimos ir embora. Acompanhei-a até ao seu carro e custou-me a despedida. Estava mais nervosa agora. Tive que lhe chamar a atenção por causa dos carros. Apeteceu-me tomá-la nos braços e colocá-la no carro em segurança. Apeteceu-me abraçá-la e beijá-la, mas não o podia fazer. Parecia que nem eu nem ela queríamos que aquele encontro terminasse. Mas lá tivemos que nos separar e foi como tivesse sido apartado de mim um pedaço do meu corpo.

Só me apetecia voltar a estar com ela. Passei por lá poucos dias depois, mas não me atrevi a combinar outro encontro. Nenhum outro seria como aquele. Mas dei-lhe a conhecer a minha passagem, na esperança de que me convidasse para nos vermos de novo. Mas não. Desde que nos despedimos fechou-se na sua concha. Deixava as minhas mensagens sem resposta ou, quando muito, respondia por monossílabos. Até que, pressionada por mim, me pediu para deixar de a abordar. Já lá vão mais de dois anos...

Desde então enviei-lhe duas mensagens. Uma foto de uma flor, que já tinha tirado há algum tempo e que só ela conhece o significado e, meses mais tarde, um pequeno poema. Como esperava, nunca me respondeu. Por outro lado, nunca me fechou a porta. Nem estes meus atrevimentos a fizeram bloquear-me, nem mesmo deixar de me seguir nas redes sociais, permanecendo entre nós uma passagem, ainda que muito estreita, suficiente para eu sentir que ela está já ali e assim conseguir suportar o vazio que me provoca a sua ausência.

 

A miúda no comboio

Andar de transportes públicos traz por vezes surpresas agradáveis. Hoje de manhã fui de comboio. A carruagem não ia muito cheia e eu era o único num conjunto de quatro bancos. Na outra ala, nos bancos contíguos, ia uma rapariga que não me chamara ainda a atenção, até porque eu ia a ler um livro. Só reparei nela quando o revisor a repreendeu por não trazer a máscara colocada. Fiquei então a observar a situação. Como ela estava sem máscara, coisa rara nos dias que correm, tive oportunidade de lhe ver o rosto. Era bem bonita! Jovem, cabelos encaracolados cor de mel, não muito compridos. Um rosto com traços arredondados e umas sobrancelhas muito bem desenhadas. Não lhe conseguia ver bem os olhos, pois ela estava de perfil, mas reparei, sobretudo, na sua atitude perante a situação.

Ela não levava máscara porque não tinha. Tinha-se esquecido de trazer de casa. Então, sempre a sorrir, mas sem faltar ao respeito, ia escondendo a cara na gola do seu casaco ao mesmo tempo que se desculpava e dizia que ia sair já na estação seguinte.

Acho que nenhuma autoridade conseguiria resistir àquele seu ar, ao mesmo tempo suplicante, doce e atrevido. O revisor encolheu os ombros e prosseguiu no exercício da sua  principal função.

Entretanto eu já tinha verificado que tinha uma máscara nova que lhe podia dar caso fosse necessário. Não a ofereci logo porque não queria parecer aquele marialva que acende o isqueiro sempre que vê uma donzela a rapar de um cigarro, fazendo-a sentir-se em dívida. Como também ia sair na estação seguinte deixei esse gesto para mais tarde, se viesse a ser necessário.

Quando o comboio começou a abrandar arrumei o livro na mochila e dirigi-me para a porta. Era provável que ela fosse utilizar a mesma porta, a menos que mudasse de carruagem ou optasse pela porta do meio. Ou que não tivesse dito a verdade ao revisor. Felizmente não me enganei. Pouco depois, ela levantou-se também e colocou-se ao meu lado. Os últimos momentos na sua presença estavam agora prestes a terminar e eu não dispunha de tempo para estar com hesitações. Dirigi-me então a ela, tratando-a por tu, contrariamente ao que havia decidido fazer momentos antes, e perguntei-lhe se ia sair por não ter máscara ou se aquele já era o seu destino pré-determinado. Foi nesta ocasião que consegui ver os seus olhos em pormenor. Eram de uma beleza estonteante. De um verde-esmeralda, que combinava com o verde do seu casaco. Com uma tonalidade muito limpa, homogénea e forte. Estes olhos enquadrados pelas suas sobrancelhas eram de cortar a respiração. Ainda por cima sem máscara era-me possível ver todas as suas expressões.

Ela respondeu-me que ia sair ali de qualquer maneira e eu, em vez de lhe perguntar se precisava de uma máscara, até porque ainda teria certo trajeto a percorrer, disse-lhe somente que se precisasse de permanecer no comboio lhe teria cedido uma. Em alturas como esta o meu cérebro fica sem capacidade de resposta e acabo por dizer coisas um bocado estapafúrdias...

A porta acabou por se abrir e eu saí à sua frente virando à direita logo depois, paralelamente ao cais. Não conseguia perceber se ela vinha atrás de mim, na minha direção, pelo que me virei para trás, não só para me esclarecer, como para a ver uma vez mais. Neste breve momento vi, com algum desagrado, que ela tinha seguido em frente, perpendicularmente ao comboio, tornando este momento defenitivamente derradeiro. Mas, sem estar absolutamente à espera, constatei que ela estava com a cara voltada para mim, para se certificar, como certamente adivinhara, que eu me ia voltar para trás para a ver. Ou, também ela, na esperança de me ver pela última vez. O certo é que ela estava com um sorriso que me encheu de alegria. Como já me encontrava sem máscara, acho que ela ainda conseguiu ver o meu. Um sorriso de felicidade que perdurou até agora.

 

 

A tua voz

Gosto de falar contigo.
De ouvir as notas alegres
que entoa a tua voz.
E quando isso acontece,
és como a flor que aparece
no ramo nu da amendoeira.
Ou como a cotovia,
que contente pousa nele,
encantando com o seu canto
e largando logo a seguir,
sem que o possa impedir.
Quando a tua voz se cala,
guardo no meu coração
a sua reverberação
até que voltes a surgir.

 

 

Susana II

(Continuação)

Um pouco antes das 19:00 já estava à porta da clínica à sua espera. Não sabia bem o que lhe iria dizer. Não sabia o que iria fazer caso me quisesse. Não sabia se estava na disposição de deixar a minha família ou se isto era apenas uma loucura. Só sabia que não a queria perder. Mas todas estas dúvidas foram desnecessárias. Ela saiu em linha recta. Com os óculos escuros já postos. Parecia um foguete. Tive que interpelá-la, caso contrário ela seguiria o seu caminho. Percebi logo tudo, claro. Com um ar carregado poupou nas palavras e acabou dizendo-me que estávamos conversados. Eu, sem ter também retirado os óculos escuros, pois não queria que visse os meus olhos sem que pudesse ver os seus, disse-lhe adeus e, orgulhosamente, fui-me embora sem me voltar para trás. A dor que senti foi então lancinante. Comprei um maço de tabaco e deambulei durante mais de uma hora, fumando cigarro atrás de cigarro. Não conseguia chorar. Os meus olhos estavam tão secos como todo eu estava seco.

Nada disto batia certo. A Susana da tarde nada tinha a ver com a da manhã. O facto de ter escondido os olhos por detrás daquelas lentes não ocultou a tristeza que consegui ver nela. Nunca me conformei com este desfecho. Tinha a certeza, admitindo sempre que pudesse estar enganado, de que a sua atitude tinha sido meramente racional. Sabia que se ia casar no mês seguinte. Não o soube por ela, pois nunca a ouvira tocar nesse assunto. Soube-o pelas suas colegas. Não acreditava no seu amor por ele.

Andei sem saber o que fazer. Alimentava uma esperança de a encontrar casualmente pelo que a procurava em todos os sítios para onde ia. Sabia que nos cruzávamos no caminho, em sentidos opostos, pelo que procurava o seu carro entre as centenas que passavam por mim. Por duas ou três vezes a vi, mas de que me servia isso? Perdi o sono e nessas insónias ia elaborando uma carta de despedida para lhe enviar. Andei a escrevê-la às escondidas durante todas as férias de verão. Quando achei que estava pronta, transcrevi-a para papel de carta, para que fosse com a minha letra. Coloquei-a num envelope ligeiramente elaborado, mas sem o perfumar. Enderecei-a a si, mas com ambos os apelidos, o de solteira e o de casada, pois já se encontrava há quatro meses neste estado. Como já sabia a sua hora de saída fui colocá-la, um pouco antes, no para-brisas do seu carro. Tive que me resguardar nas imediações para ter a certeza de que a carta chegava a bom porto. Ela deve ter percebido de imediato de quem era a carta e ainda olhou em seu redor a ver se encontrava o presumível autor, mas não me viu.

Nesse mesmo dia, tal como adivinhara, bloqueou-me nas redes sociais, e nunca mais me lhe dirigi. Continuava inconformado, apesar do tempo que já tinha decorrido desde a última vez que nos víramos. Não havia meio de passar esta minha azia, mas nada mais podia fazer. Foi muito difícil suportar os meses seguintes. Pensava muito nela. Revisitava todos os momentos vividos com ela. Tentava compreender o que se tinha passado e continuava a procurá-la nos sítios para onde ia. Podia ter ido ter com ela ou tê-la contactado utilizando outros subterfúgios, mas sabia que isso a iria afastar ainda mais de mim, pelo que nunca mais a procurei ativamente. Contudo mantinha uma esperança inabalável de que a iria encontrar e de que iríamos finalmente poder cair nos braços um do outro. Pensava na carta que lhe tinha escrito, que acabei por perder o original, por se ter danificado o respetivo ficheiro. Imaginava como teria reagido. No que estaria a sentir. O que teria feito à pequena medalha que lhe havia enviado dentro da carta dizendo-lhe que me tinha acompanhado, ao peito, durante metade da minha existência. Se a usaria ou se a teria deitado fora ou arrumado no fundo de uma gaveta. Por vezes ainda me questiono sobre isto.

Não sei. Nunca mais a voltei a ver. Não acreditava que o destino me iria pregar uma partida destas, mas, a partir de certa altura, comecei a perder a esperança de reencontrá-la. Andei insone e deprimido durante meses. Parei no tempo durante anos. Até me dar conta de que já estava muito mais velho, sem me ter apercebido de como o tempo tinha passado... apenas ao fim de cerca de três anos me apercebi de que não havia pensado nela no dia anterior. Estava finalmente curado! Mas a tristeza e a angústia perduraram por muito mais tempo...

A Susana foi a maior paixão da minha vida. Talvez nunca tenha amado tanto uma mulher como a ela. Foi a mulher que mais me fez sofrer, mas também a que proporcionou dos mais felizes momentos que tive a sorte de experimentar. Hoje em dia raramente penso nela. E quando penso já não me causa sofrimento. Gostava de voltar a encontrá-la, mas já não tenho ilusões.

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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