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O que fica na gaveta

Miguel Lucas

O que fica na gaveta

Miguel Lucas

Monique

Ontem tive reunião com a Monique. É morena com uns olhos azuis muito claros e muito bonitos, emoldurados por umas sobrancelhas primorosas. Os lábios não ficam atrás, deixando ligeiramente a descoberto um alinhamento de dentes dispostos com mestria. Tudo isto num rosto com contornos delicados e agradáveis, envolvido por cabelos castanhos levemente encaracolados, mas não muito compridos. Não é uma deusa, nem uma top-model, mas ficou-me debaixo de olho desde a primeira vez que a vi. Sempre que me reúno com ela dedico algum tempo a admirar as suas feições. A sua voz condiz com o rosto, sendo muito clara, doce e sensual.

Já sabia que era casada. Ainda assim, quando há uns dias soube que estava grávida, não consegui disfarçar o meu desapontamento perante os meus colegas no comentário que lhes fiz de imediato. Não sei se a gravidez teve alguma influência nisto, mas ontem achei-a ainda mais bonita. Para com ela sinto uma enorme ternura. Uma vontade de a proteger, de ter a certeza de que não se magoou ou que sentiu algum desconforto, de satisfazer um capricho seu, de que não lhe falte nada. E a sua gravidez intensificou ainda mais estes sentimentos.

Quando me dirigia com ela e mais dois colegas para o laboratório, em que eu seguia a seu lado, com a sua simpatia, o seu doce gracejar e, pareceu-me, certo brilho nos olhos, deu-me uma vontade louca, quase incontrolável de envolvê-la com os braços e de a beijar. Não fosse a presença dos colegas, acho que não teria conseguido resistir, pois tinha a impressão de que a vontade não era só minha. Foi como uma súbita subida de pressão que apenas se foi aliviando quando nos aproximámos do verdadeiro objetivo daquela excursão. A sensação de que ela queria ser beijada passou e concluí que mais não era do que outra das minhas fantasias. De regresso dei-lhe os parabéns pela criança, que soube que vai ser menina, e mais alguma conversa de circunstância englobando os quatro presentes. Ainda tive oportunidade de me maravilhar um pouco com ela, mas rapidamente o assunto terminou e tivemos que nos despedir. Estendi a mão ao seu colega e ia fazer o mesmo com ela, como aliás sempre nos cumprimentámos, mas ela deu-me a cara a beijar. Fiquei agradavelmente surpreendido com este seu gesto e novamente me questionei se a vontade que tivera teria sido só minha. Fiquei quase certo de que ela tinha lido o meu pensamento e ouvido como ele sussurrava incessantemente "apetece-me tanto beijar-te". Nunca tinha tido um impulso desta natureza com tanta intensidade. Felizmente tudo decorreu conforme as regras da sã convivência, mas, por outro lado, mal posso esperar que chegue a próxima reunião.

 

 

O sonho

Hoje tive um sonho que acabou por me dar uma boa lição. Eu e outros colegas, ou amigos, não consigo precisar, fomos presenteados com um fim-de-semana numa quinta recheada de mulheres. Transbordávamos de alegria! Eram relativamente bonitas e, mais interessante do que isso, mas um pouco constrangedor, sabidas. Eram em maior número do que nós, o que elevava a probabilidade de se ser bem sucedido. No entanto, a insegurança que sentia, medo, acabrunhamento, sensação de não ser atraente, emprestou-me uma atitude que talvez tenha sido a responsável por ter sido o último a ser escolhido por elas. Em vez de me ter lançado na corrida para procurar a que mais me agradava e consegui-la, tomei logo uma posição de desistência, acabando por fazer como faço nos bufetes dos casamentos que é deixar seguir a maralha apressada primeiro e ir depois, tranquilamente, escolher entre o que sobra, estratégia esta que, qual necrófago, até se tem revelado bastante satisfatória, pelo menos no que a bufetes diz respeito... Como a quantidade de mulheres era grande, ainda assim o que sobrou não foi mau. O pior foi perceber o desapontamento por parte delas. Para estas eu era o refugo dos refugos, ficando desapontadas com o que lhes tinha calhado na rifa. O que viria a acontecer depois seria para elas apenas o cumprimento de uma obrigação, o que era a última coisa que eu queria. O sonho estava a assumir gradualmente contornos de pesadelo, mas, por sorte, tive a felicidade de acordar.

Voltei a adormecer logo de seguida e regressei ao dito fim-de-semana. Agora a minha mente estava a defender-se e tentava encontrar alguma dignidade na situação. Então, surgiram mulheres que rejeitaram os outros por não se sentirem amadas por eles. Por se sentirem apenas objetos de prazer. E a minha confiança começou a aumentar por sentir que nesse campo tinha muito para dar. Pouco depois comecei a colher os frutos desta nova realidade e dei por mim já amando uma delas e sendo objeto do seu amor. Ela era muito bonita e em pouco tempo eu estava a beijar os seus lábios carnudos ao mesmo tempo que uma das minhas mãos deslizava docemente sob a blusa, deleitando-me com o tato suave das suas proeminências. Seria mesmo amor o que lhes queira dar? Como pode um homem ser tão sonso mesmo quando está a sonhar… Mais tarde, já me encontrava de pé com outras duas mulheres de sonho, na verdadeira aceção da palavra, com as minhas mãos fazendo ainda maiores progressos, agora mais afoitas, introduzindo-se na abertura das costas dos seus vestidos, roçando a pele macia de uma e de outra, descendo vales e montanhas firmes e sedosos até tocar as pétalas sensíveis dos botões, que se abriam, prestes a oferecer a tão almejada explosão de sentidos. O pesadelo estava a dar lugar a um dos mais agradáveis sonhos que já tive, mas, neste momento, cruel e friamente, tive a infelicidade de acordar.

 

A Sereia

Conhecia-a há muito tempo. Tinha eu 20 anos. Ela devia ter 17. Foi num evento que reunia gente de todo o país. Encantei-me com ela quando a vi no palco desempenhando o papel de sereia. Nem me lembro qual o enredo da peça. Só me lembro que fiquei fascinado por ela. Não lhe tirava os olhos de cima. Era de noite e eu estava um pouco na penumbra. Lembro-me de que ela olhou para mim, mas não soube se me tinha realmente visto.
Era loira, não muito alta, muito bonita. Achei-a um sonho de miúda e fiquei ali a admirá-la, qual marinheiro perdido no oceano deslumbrando-se com uma sereia imaginária. Ela era real e nos dias seguintes encontrava-a muitas vezes, mas nunca parei para conversar com ela. Por vezes olhávamo-nos um para o outro. A minha timidez e receio de ser rejeitado mantinham-me neste recato.

O encontro acabou por terminar e houve as tradicionais despedidas com trocas de objetos pessoais, promessas de amizade eterna e choradeiras. Não sei como me despedi dela, mas ainda guardo com muito carinho o que me deixou escrito: "A distância traz saudade, mas nunca o esquecimento". Fiquei atónito. Não me tinha apercebido de que tinha tido algum significado para ela.

Por vezes encontro o testemunho que me deixou e penso se ainda me lembraria dela se não me tivesse escrito aquilo. Penso que não. Acabaria por esquecê-la assim que as chamas se apagassem. Mas tendo-o feito mostrou-me que os nossos sentimentos eram recíprocos e isso acendeu ainda mais o fogo que já ardia em mim.
Mas a distância acabou por falar mais alto. Com trezentos quilómetros entre nós e com outro relacionamento, mais tangível, a ter início acabei por deixar escapar esta sereia para sempre. Deixei-me guiar pela razão desprezando a vontade do coração e isso este nunca me perdoou.

Nunca mais soube nada dela. Já a procurei nas redes sociais, mas sempre sem sucesso. Talvez tenha agora outro apelido. Talvez tenha marido e filhos. Reacender esta amizade só iria trazer complicações. É melhor continuarmos assim. Vou me lembrando desta sereia de vez em quando com uma ternura infinita, confortando-me com a ideia, provavelmente falsa, de que ela ainda não me esqueceu e ainda procura o meu aceno, lá longe, num ou noutro barco negro que, com as velas já soltas, cruze o seu horizonte.

 

O silêncio não é resposta (que se dê)

Depois daquele que seria o dia da nossa despedida escrevi-te por quatro vezes mas com silêncio me respondeste.
A tua resposta foi a que não queria porque nada disse mas tudo podia dizer.
Quando te voltei a escrever, dizendo-te o quanto queria voltar a ver-te, e pedindo-te que me respondesses, mais uma vez continuei sem saber o que pensavas.
Esse teu silêncio podia querer dizer tanta coisa...
Que não gostavas de mim, que te esquecesse ou, então, aquilo que não podias dizer.
Fui ter contigo para saber.
Quando te perguntei a razão de nunca me teres respondido disseste-me apenas que o silêncio é também uma resposta.
Então, pelo teu sorriso e pelo brilho no teu olhar senti que sendo de outro a tua mão não o era o teu coração.
A alegria no momento foi imensa, mas a dor posterior quase impossível de suportar.
O nada que disseste tudo podia dizer.

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Nota:

Os nomes aqui citados apenas são verdadeiros nas histórias que são fictícias.

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